
A sina de carmear:
É mesmo a nítida sensação que vivo quando me ponho a pensar, intrigada, sobre o porquê de viver pensando, escarafunchando, analisando tudo que me cai nas mãos, sob o olhar, à mercê de qualquer de meus sentidos, enquanto caminho pela vida. Parece haver um vaso comunicante em linha direta entre os meus sentidos e a mente interligadora de fatos e circunstâncias… Vivo, sim, de carmear*.
Anteontem, um amigo do coração, carequinha da silva, me enviou uma foto com a mulher a ele abraçada, num movimento de jogar por cima da cabeça do companheiro, vaziinha de pelos, a sua própria cabeleira, fazendo surgir uma foto meio gaiata, sem nenhuma arte, mas, pra mim, carregada de simbologia. Casados há décadas, me encantei em ver um casal que, a esta altura do casamento, brinca, se achega, sem falar da simbologia da beleza daquela mulher já grisalha protegendo o seu macho, num tempo em que o clima é frio para o corpo e para a alma. Paro tudo, faço minhas elucubrações e escrevo um bilhetinho de amor para os dois. Como não carmear esta lã? E como não lhes falar daquilo que, entre uma chateação ou mesmice da vida a dois, eles possam nem estar se dando conta? O encantamento, que é a vida a dois na maturidade, precisa ser carmeado e posto bem visível para que o casal não se perca em distrações, se olhe e entenda a beleza de serem par, independentemente da reforma da casa estar mais custosa do que o previsto ou da filha estar em dúvida sobre que rumo tomar na vida.
Esse é um caso, mas há outros, de sobra… A médica na TV, que dá uma entrevista em que valoriza o envelhecimento como belíssima oportunidade de se viver a liberdade, pronto!, já me faz adentrar por raciocínios e tramas que me tomam e passo a relembrar – e com maior ênfase e um sorriso maroto no canto da boca – as delícias de poder falar o que quero, como falo; de não me relacionar com quem não quero, nem por educação (simplesmente saindo de fininho de quaisquer contatos indesejáveis); de escrever o que quero, mesmo pessoas bem próximas e queridas questionando a minha exposição desnecessária (tenho lá nada com quem quer que seja!!!); e por aí vai… De fato, os cabelos grisalhos me trouxeram um trato mais livre de amarras com os outros seres fora de mim…
Um outro fato mais que corriqueiro: uma querida amiga sugere que possamos saber melhor quem são, por exemplo, os eleitores do Bolsonaro, entre fascistas, ingênuos e uns outros tantos. Pois está dada a senha para uma nova carmeação. Já vou tratar de pensar, estudar e escrever a respeito…
É destino, carma, não sei que nome atribuir – mas vivo mesmo de pensar, observar, imaginar, especular, intuir, estudar, destrinchar. E, por que não dizer, de carmear mesmo… E se as “lãs” estiverem bem emaranhadas, aí é que ralo os dedos e faço doer a cabeça, mas não desisto enquanto não soltar, pelo menos, o embaraçado mais crespo, para então entregá-lo à máquina do mundo que tudo carpeia, com maior ou menor êxito.
Não por outro motivo, uma conhecida me telefona e diz – “Já fiz café, já lavei roupa, minha cama já está feita, agora vou ao mercado, ao banco e depois à hidro…” E eu – “Jura? Cansei só de ouvir… Pois eu ainda estou na cama, só dedilhando…”, ao que ela, mais que depressa, arremata ” E eu não sei? Vc é sempre preguiçosa!”
(Eu é que nem perdi tempo em dizer que apenas continuo obediente a “Seu” João, meu pai, e a dona Neném, minha mãe ao me nomearam Carmen…: “É que carmeio, minha filha, carmeio…) [2019]
*Carmear – Desfazer os nós da lã antes desta ser levada à carda.
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