
Unicórnio:
Cavalo se reconhece pelo passo, pelo trotar. Tudo se sabe: se firme, se de mansidão ou arisco. O cavaleiro, pelo jeito de segurar a rédea. Sei quando é ele quem vem lá, pelo trote ritmado. Devagar, um casco, o outro, marcando o chão de terra. Sei desde cedo, que nem fosse aviso: volto rasteiro da escola e não largo da beira de casa. De tardinha, surgem ele e cavalo ladeira acima.
Primeiro fala com mãe. Vejo os dois trocando cumprimento, ouço mãe repetir cada vez:
– Por Deus, homem, sei nunca quando vem. Coisa desgracenta.
Ele tão bom pra ela, mãe acaba em ternura. Aí chega minha vez.
O pai adivinha sonhos. Aparece com panela, moringa, tudo coisa de necessidade que a mãe sonha. Traz ferramenta pra plantar, semente de milho e tomate, alface, aipim, muita coisa. Traz vestido e enfeite pra alegria da mãe.
Diz pra ela, o olhar se espichando por baixo da aba do chapéu:
– É só você e o menino, só vocês nessa minha vida.
Sou eu o menino. O que já ganhou bota, chapéu que nem o dele, bola de gude, e um monte de sonho adivinhado. O pai faz brinquedo. Fez uma tal de catapulta com pedaços de madeira pra jogar milho pras galinhas. Espalhamos milho pelo quintal todo, as galinhas chegaram a endoidar. Mãe briga, mas ri. Bonito foi o tal de caleidoseiláque que ele trouxe: um tubo de papelão com um furo pra colar o olho, a gente vai revirando o tubo e vendo monte de estrelas que aparecem lá dentro. Brinco com cuidado pro tal negócio não se acabar, vou revirando bem devagar.
Gosto de ver estrelas com o pai, ele mostra elas no céu, os desenhos que elas fazem. Também gosto de ver nuvens com ele, só a gente entende os recados delas. Por isso eu sonho, sonho muito, que sei que o pai vai trazer o sonho pra mim. Sonho por causa dele.
Da última vez, trouxe um livro. Disse que fazia gosto me ver lendo e escrevendo. Eu não tinha sonhado com um livro, nunca. Mas quando meti os olhos nas páginas coloridas, nas figuras, na história, entendi. Talvez alguns cavalos não se reconheçam assim tão fácil, tão aparente. Alguns cavaleiros são especiais. O livro era um recado do pai, nuvem não dava conta. E quando ele foi, me enfiei atrás da janela do quarto e abri bem os olhos.
Antes, não queria ver, ficava com o barulho abafado dos cascos no chão de terra dando notícias da distância. Abri os olhos e confirmei o que logo se fez suspeita: já chegando na porteira, vi sair uma luz da testa do cavalo do pai. Certeza, eu vi: uma luz. Não consegui ver o chifre, o pai sumia lá longe com o cavalo.
Na porta de casa, mãe fala miúdo. Toda vez:
– Deus lhe ajude a voltar. Deus abençoe.
Parece que chora.
Mas eu sei, desde esse dia: ele volta. Vai voltar sempre.
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