João Mauro Amaral dos Santos

João Mauro Amaral dos Santos

Dentro do lado de fora do mundo:

Eu sempre admirei os cronistas. Eles tiveram um papel decisivo para que eu tomasse gosto pela leitura. Ah, aquela capacidade de escrever algo interessante sobre o real, o cotidiano. E muitas vezes cotidianamente produzindo. E com a espada afiadíssima dos chefes de redação e dos editores sobre suas cabeças. Houve um dos nossos geniais cronistas. Não lembro se foi Fernando Sabino ou Paulo Mendes Campos que, com a cabeça vazia de ideias para uma boa crônica e sob a pressão do tempo para entregar o texto ao jornal, decidiu escrever sobre a falta de ideias para uma boa crônica. E assim saiu a sua crônica daquele dia. Se existisse a categoria “genialidade cara-de-pau” no Oscar, no Emmy, no Tony, no John, Paul, George ou Ringo, ele a abiscoitaria.

Eu não sei se isso que estou escrevendo pode ser classificado como crônica. Talvez fique longo demais para isso. E nem conto, porque pode ficar muito curto e coloquial. Além do mais, não vai haver, juro por Deus, nada ficcional aqui.

Aí é que está. É uma experiência própria. O narrador sou eu, o eu-lírico, o personagem — e é tudo verdade. Vou tentar dar algum sabor ao relato. Não quero que fique como uma conversa adolescente com um diário.

“Os Sertões” é o exemplo mais clássico de relato real com requinte estético, correção linguística, fineza de estilo e honestidade intelectual, ao imprimir sua visão de mundo. Uma obra-prima. Longe de mim a jocosa intenção de fazer algo parecido com o que fez Euclides da Cunha. Só vou procurar pensar nele enquanto escrevo. E conto com a compreensão piedosa dos leitores. Um riso mal contido aqui ou ali não vai me ferir, mas ao gargalhar, cubram a boca para que eu não perceba, por favor. 

“Por conta de umas questões paralelas”, não quebraram o meu bandolim — que sequer tenho e muito menos toco — eu vim parar na emergência do Hospital Estadual Azevedo Lima. Excessos alcoólicos e gordurosos contumazes me brindaram com cálculos biliares, além de um, mais saidinho, que decidiu me entupir o tal do coléro, canal que conduz a bile até o intestino. Ou seja, dor, muita dor, uma dor em uma intensidade que jamais sentira.

— Aqui só atendemos traumas — assim, docemente, me recebeu o funcionário da portaria da emergência.

Apesar da dor estonteante, respondi:
— Te garanto amigo, que nunca estive tão traumatizado! Estou sentindo muita, muita, muita dor no abdôme — respondi, curvado e com um fio de voz, suando frio. 

Acho que, por medo de que eu perdesse os sentidos ali mesmo, ele me deixou entrar e disse:
— Aguarda em frente a essa porta aí, que a enfermeira vai lhe dar o primeiro atendimento, o de classificação de risco.

Não sei qual o critério deles para “classificar o risco” mas, se eu fosse me classificar, daria morte iminente.

Meia hora de “ai!, ui! ai meu Deus, eu vou morrer!” e finalmente uma médica me mandou deitar em uma maca aparentemente infantil, já que metade de mim ficou de fora e com os meus pés também. Apertou a barriga — que dor! Foi quando eu tive a primeira surpresa: me encaminhou para a sala de medicação e, pasmem, solicitou uma ultrassonografia.

Me deram um analgésico forte que pouco adiantou, mas em quinze minutos eu estava sendo examinado no ultrassom em outra maca infantil. 
Na hora, o médico decretou: 
— Cálculo biliar na vesícula e outro no coléro. 

Internação. 

Fiquei dois dias em uma tal de sala verde, até que fui transferido para uma enfermaria. No 1º andar, um longo corredor era dividido em duas alas, uma feminina e outra masculina, com suas respectivas salas de enfermagem. Fiquei no quarto sete, leito três. Eram seis leitos por quarto, mas, considerando que existiam apenas duas saídas para oxigênio, ar e vácuo, entendi que antigamente os quartos eram compartilhados apenas por dois pacientes. Eram oito quartos com seis leitos cada. Os do lado direito possuíam saída para uma varanda com alguns bancos. Uma rede de nylon estava lá, acredito que para evitar quedas de pacientes, voluntárias ou não. Os pacientes que podiam andar, como eu, tinham livre circulação na ala masculina. Eu expandi esse limite até uma salvadora máquina de café e capuccino no térreo.
 
Não posso dizer que a estrutura humana e material não me surpreendeu positivamente, levando em consideração a crise em que os últimos governos jogaram o Estado do Rio. O hospital é administrado por uma O.S. (organização social), método de privatização e de precarização da saúde pública que na maioria dos casos só resultou na continuação do mau atendimento à população e no desvio de verbas públicas. O nome da tal O.S. é ISG. 

Admito que, enquanto opositor ferrenho desse tipo de solução às mazelas da saúde pública e na condição de paciente, não encontrei erros graves na relação cotidiana da estrutura hospitalar com os pacientes. Os médicos, apesar de passarem correndo nas enfermarias para a visita médica diária e mal falarem com os seus doentes, parecendo um trem no qual você tem que embarcar em movimento cuidando para não cair, pareciam competentes. O corpo de enfermeiras e enfermeiros era dedicadíssimo, embora eu tivesse entreouvido queixas de salários baixos e atrasados.
29/05/2018


João Mauro Amaral dos Santos
Professor de História


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Uma saudade

Em junho de 2018, João Mauro _ nosso querido Maurinho _ recebeu alta do hospital. Um ano depois, por conta das “mesmas questões paralelas”, deixou amigos e família para, conforme sua crença, visitar os ancestrais. Choro aqui a minha saudade.

Antonio C. B Campos [Totonho], primo.

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Um agradecimento

Bem, meu mano velho ficou mais de um mês internado no Hospital. Visitei-o algumas vezes, tomamos café da máquina de cappuccino, nos sentamos na varanda com tela, falamos da vida, fizemos promessas, refletimos sobre  o  aprendizado que aquela internação traria, ouvi dele, que saindo dali, seria outro homem…dois anos depois, numa terça feira à noite, descobri que não o tinha mais aqui, nesta terra de SUS e de promessas que nunca cumpriremos. Ele continuou a ser o bom e lindo Maurinho que amamos. E será sempre o homem inteligente das rodas de conversas, dos botecos e das discussões políticas. Deus ou a força maior, como queiram, resolveu levá-lo antes da Pandemia, sabendo do seu amor pela rua, pela liberdade de ir e vir, de aglomerar. Fica aqui minha conclusão desta crônica, meu irmão. Gratidão de dividir uma criação com você, meu letrado! 

Claudia Cristina Amaral dos Santos,  irmã.
Professora, cantora e poeta


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Um possível final 

 
Minha esposa vem me ver nas visitas hospitalares, me traz os jornais, para que me mantenha atualizado e cigarros, a contragosto, é claro,  já que desse vício não mais padece, já eu… 
 
Peço-lhe que me traga manteiga, mas isso se nega e ainda me enche de broncas, das quais dou boas risadas. 
 
Ela diz:  “Não aprende mesmo, né? Com problema na vesícula e insiste na manteiga?” Ao que respondo rindo muito: “Adoro vê-la assim,  minha brabinha preferida”.
 
 Seguimos pra  varanda para que me ponha a par do mundo. 
 
E, em meio aos “eu te amo” de ambos os lados, nos perdemos num abraço sem fim e encontro meu oásis em meio ao caos.

Cássia Pinheiro
Amante das artes, viúva.


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