
Meu diário encontrado no oceano:
Em 2009, o avião 447 caiu no Oceano enquanto fazia a trajetória Rio/Paris. Acontecimento trágico, do qual poucas pessoas devem ter esquecido. Naquela época, impressionou-me sobremaneira a quantidade de pessoas que embarcaram com um certo destino (ou destino certo?) e foram impedidas de chegar.
Passei muitos dias tentando imaginar cada um dos tripulantes… cada família mutilada… cada rotina alterada. Daí, escrevi o texto. Estive naquele avião, nos devaneios de meus pensamentos. Estive lá, com o meu diário.
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Eu sobrevivi ao acidente. Eu não estava no avião que caiu no Oceano. Mas fiquei pensando sobre o que aconteceria com o meu diário, se fosse resgatado do fundo do mar, inexplicavelmente intacto. As mãos curiosas que encontraram os destroços do avião abririam o diário, certamente, e já que eu não existiria para tomar ciência desse resgate, ousariam lê-lo.
Aberto, lá estaria ele, revelando minha infância reprimida, mas feliz, embora nunca coberta de carinhos e sem amigos. Brincava com os vidros de perfumes, que minha mãe vendia, e que dispunha na penteadeira. Sempre sob a ordem de não quebrar nada, acompanhada de algumas ameaças, caso acontecesse… Os lápis de cor também eram personagens de bailes e, quando minha mãe deixava, eu brincava com suas perucas (apesar de morrer de medo delas!). Aqui já me sinto invadida. Por que interessaria ao explorador curioso ler essas páginas? Não haveria mais destroços a procurar?
Depois de algumas fotos amareladas, o ousado leitor chegaria às páginas de minha adolescência, quando percebi que, apesar de não me sentir amada, descobri o amor, aos treze anos de idade, Adolfo. Nessa parte do diário, ele encontraria muitas letras de música e, com certeza, seria possível ao intruso ouvir Rita Lee cantando “Meu bem você me dá água na boca…”
Adolfo nunca olhou pra mim. Eu o amava incompreendidamente! Mas mereceu registro em meu diário o fato autêntico de que ele possuía o mesmo sobrenome que eu: Pontes. Nada demais, não fosse o fato de que a minha melhor amiga gostava do melhor amigo dele, Marcelo, que tinha o mesmo sobrenome que ela: Oliveira. (Convites de casamento facilitados, obviamente, pensávamos.).
Avançando um pouco, o explorador invasor descobriria o quanto amei aos vinte anos! Mas não encontraria, ainda que buscasse, muitos registros sobre esse amor. Aí, fui apresentada aos sabores dos beijos e carinhos, do afeto, da alegria, e de todas as lágrimas que vêm por consequência de se amar aos vinte anos. Páginas em branco, com linhas manchadas por gotas salgadas. Talvez letras de música mais antigas: “… E agora me aperta a aflição de chorar louca e só de manhã / é a flecha do arco da noite sangrando-me agora…”, e algumas fotos de como eu era quando tinha onze quilos a mais antes de amar, pra lembrar sempre de que não deveria fazê-lo novamente, nunca mais na vida, porque a gente quando tem vinte anos pensa que tudo é nunca mais, promete tudo pra nunca mais, e não sabe que não cumpre promessas.
Meus textos envolvem o descobridor do meu diário. Para ele, já não há mais o que encontrar. E ele busca desenhar o meu retrato em sua mente, imaginando como seria aquela que tanto amou, e que agora descansa naquele fundo macio, carinhoso, sedutor do Oceano. Mas algo faz com que ele volte a folhear, e percebe que eu escrevia enquanto voava.
No texto escrito com letras tremidas – que o faz supor ter sido durante o voo – agradeço a Deus pelo meu filho, pelo sorriso dele, pela sua vitalidade e alegria, pelo amor que (ele sim) tem por mim. Agradeço pelo amor que só então pude perceber que tive dos meus pais, e que se fez valer na preocupação com a minha formação enquanto ser humano. Eu sou assim, graças a eles. E agradeço, pura e simplesmente, pelo dom da Vida.
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