Luiz Claudio B. de Magalhães

Menino negro. G E I S O N F R A N C O – http://artluv.net/obra-de-arte/menino-negro/

Mais bonito:

Tive um amigo, muito amigo, amigo mesmo, desses que a gente só tem aos oito anos de idade. Toninho, era assim que eu o chamava, talvez se chamasse Antônio, mas não tenho certeza, não lembro mais.  Lembro que era filho do velho sapateiro. Um homem magrelo, simpático o qual gostava de ver trabalhar, na sua lojinha bagunçada fazendo um trabalho que eu achava primoroso.
 
Toninho e sua família moravam numa casa sem reboco na frente de um imenso terreno baldio. Nesse terreno, havia uma mangueira e uma velha jaqueira, ambas, para minha sorte, muito produtivas. Era também um dos meus lugares favoritos para vadiar. Foi ali, catando frutas e mamonas, que conheci Toninho. Dividimos uma jaca, fizemos uma guerrinha de mamonas, jogamos bola de gude… no final da tarde, éramos eternos amigos. 

Desde aquele dia, passamos a vadiar juntos. Vadiávamos na rua, na escola, nos quintais, nas lajes, nos morros, nas favelas. Nosso território de traquinagens era grande. 

Uma coisa me incomodava muito no Toninho, era a cor da pele. Eu sentia como se ele fosse meu irmão, mas a cor dele estava sempre ali, lembrando.  Era fato, ele era muito mais bonito que eu, era negro. A cor de pele mais bonita que conhecia, sem falar nos cabelos que estavam sempre penteados, super prático.  Um dia, perambulando pelo terreno baldio, encontrei um monte de carvão.  Peguei um pedaço e fiquei desenhando na calçada. Percebi que minha mão e meus joelhos ficaram pretos. Tive uma ideia. Esfreguei carvão por todo o meu corpo. Sabia que tinha cabelos encaracolados e pretos, por isso achei que fiquei tão bonito quanto o Toninho. Olhei nas poças. Estava muito bonito, gostei. Toninho não parava de rir. Eu gritava: “Agora somos irmãos! Sou preto como você! Fiquei bonitão!” Os outros meninos riram também, alguns até fizeram a mesma coisa, pintaram-se de carvão. Voltamos às brincadeiras. Éramos quase todos pretos. Muito bacana. 

No fim da tarde, já um preto bonito assumido, voltei para casa orgulhoso do meu feito. Quando meu irmão me viu passar pelo portão, deu um grito e começou a chamar pela mamãe. Meus irmãos mais novos ficaram de olhos arregalados.  Comecei a dançar e fazer piruetas sobre a mureta da varanda. Era a glória, tinha conseguido, estava muito bonito.  Minha mãe chegou à varanda achando que algum estranho tinha entrado em nossa casa.  Quando me viu, arregalou os olhos, ficou meio que paralisada um instante e caiu na gargalhada. Eu pulava num pé só e dizia: “Olha mãe, agora posso ser saci…posso ser zumbi… estou bonito como o Toninho!!” “Quero ser assim pra sempre!” Mamãe parou de rir, pegou o chinelo, me agarrou pela orelha e me deu a maior sova. Depois, falando muitas coisas que eu não compreendia, jogou-me no tanque de lavar roupas e acabou com minha beleza com bucha, água e sabão português. Disse que estava de castigo, que teria que varrer o quintal por muito tempo, mas nada me entristeceu mais do que minha imagem refletida no espelho da cristaleira. Não estava mais bonito como o Toninho.


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