
Lesley Oldaker
Algumas reflexões sobre a contemporaneidade:
Pensar nosso tempo a partir da função paterna nos leva a um capítulo da história da civilização, em que o desejo é substituído pelo dever e pelo gozo, engendrando, dessa forma, o mal-estar da condição humana e o mal-estar do eu do homem contemporâneo. Novos objetos, descobertos pelas ciências, são moldados às necessidades forjadas pelo discurso da publicidade e a promessa de um gozo a mais. Assim, o homem, reduzido à condição de objeto e jogado na mais profunda solidão, se vê obrigado a assumir um gozo que lhe causa horror.
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Think of our time from the paternal function leads to a chapter in the history of civilization, in which desire is replaced by duty and the joy, engendering thereby the malaise of the human condition and the malaise of the self of contemporary man. New objects, discovered by science, are tailored to the needs forged by the discourse of advertising and the promise of a more enjoyment. Thus man, reduced to the status of object and thrown in the deepest solitude, was forced to take a joy that cause him horror.
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O privilégio do gozo, o enfraquecimento da função simbólica do pai (Nome-do-Pai) e, consequentemente, a degradação da imagem paterna são as marcas da contemporaneidade, também chamada de era pós-industrial, pós-moderna e cibernética.
Na conferência A Terceira (La troisième), apresentada no Sétimo Congresso da Escola Freudiana de Paris, realizado em Roma, Jacques Lacan, referindo-se ao futuro da psicanálise, diz que tudo depende do que irá acontecer com o real. Se um automóvel, como uma “falsa mulher”, vier a ocupar o lugar do falo, não haverá mais lugar para a psicanálise. Entretanto, o próprio Lacan não acredita nisso, porque, para ele, o falo impede a relação sexual com qualquer coisa que venha ocupar o lugar de parceiro. O impossível da relação sexual é o mal-estar da condição humana. A esse se superpõe o mal-estar da civilização. Em relação ao mal-estar da condição humana, temos a psicose, a perversão e a neurose, produzindo sintomas, a partir da função paterna: foraclusão, renegação ou desmentido e denegação do Nome-do-Pai. Se o mal-estar faz parte da estrutura, logo não há progresso. Porém, Freud, em O mal-estar na civilização (1930 [1929]), afirma que o progresso, nas ciências e em suas aplicações, permitiu a dominação das forças da natureza e a modificação das circunstâncias das relações humanas. Entretanto, Freud, no referido texto, faz questão de ressaltar que o progresso não proporcionou nem o aumento de satisfação da vida, nem a conquista da felicidade e nem a eliminação dos sintomas.
Sem dúvida, a civilização impõe renúncias às exigências das pulsões sexuais e ao desejo. Os conflitos entre o superego e o eu desencadeiam o sentimento de culpa, ao nível consciente, e o desejo de punição, ao nível inconsciente. Em qualquer época esses conflitos atormentam, fazem sofrer e geram sintomas, porque “o homem é marcado, é pertubado por tudo aquilo a que se chama sintoma — na medida em que o sintoma é aquilo que o liga aos seus desejos” (LACAN, 1992, p. 262). Em “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, 1953, Lacan nos ensina que o sintoma é estruturado como uma linguagem e constituído pela sobredeterminação de um conflito passado (recalcado) e de um conflito presente (retorno do recalcado). Justamente por isso, o sintoma é definido como uma fala que “deve ser libertada” (LACAN, 1988, p. 270), uma fala que deixe escapar alguma coisa da ordem do desejo, uma fala que revele uma verdade a ser reconhecida e não denegada pelo sujeito. O desejo como desejo do Outro só pode ser situado em uma alienação fundamental, que está ligada à relação do homem com a linguagem. Mas linguagem, aqui, deve ser compreendida como estrutura e não como fenômeno social. Nesse sentido, não há sintomas específicos da contemporaneidade. Há sintomas revestidos de novas camuflagens. Há produção de novos objetos. Há multiplicidade de discursos. E isto tem consequências. Uma delas é a constituição de uma nova realidade para o homem, já que é o discurso que constitui a realidade, e não ao contrário.
Os discursos que dão forma ao eu do homem contemporâneo têm como ponto de convergência privilegiar o gozo e não o desejo. Isto se articula, diretamente, com o enfraquecimento da função simbólica do pai (Nome-do-pai), produzindo como efeito, ao nível do imaginário, a figura de um pai impotente.
Em O seminário, livro 8:a transferência, Lacan identifica uma série de relações entre a tragédia como gênero e a experiência analítica, porque ambas colocam em cena um drama que tem como centro o desejo e sua relação com a função paterna. Édipo, Hamlet e Toussaint Turelure apresentam três posições do sujeito diante do desejo, ilustrando, dessa forma, a função paterna como “sintoma do momento temporal” (LACAN, 2008, p.31). Ou dito de outro modo, Sófocles, Shakespeare e Paul Claudel apresentam a imagem do pai em suas civilizações: antiga, clássica e contemporânea. Em Édipo-Rei (em torno de 426 a.C.) de Sófocles, o pai como semblante é uma figura de autoridade; o pai está morto, mas o filho não sabia que ele é seu pai, não sabia que o pai estava morto, e não sabia que ele é o assassino; o filho, ao querer evitar o crime, encontra-o; o filho se pune por uma falta que não cometeu; o desejo de saber é que motiva o filho a descobrir o incesto e o parricídio. Em Hamlet (em torno de 1600) de Shakspeare, o pai, como semblante, não representa a autoridade, mas a figura ideal do cavaleiro do amor cortês, ou seja, o amante ideal; o pai como fantasma está condenado a vagar e demandar justiça; Hamlet, ao contrário de Édipo, sabia quem era o assassino, sabia como seu pai foi morto; enfim, temos o sacrifício do filho sem redenção. Assim, Édipo por não saber age e Hamlet por saber não age. Na trilogia O refém (L’otage, 1908-1910), O pão duro (Le pain dur, 1913-1914) e O pai humilhado (Le pére humilié, 1915-1916) de Paul Claudel, Touissant Turelure, como semblante do pai, é uma figura desprezível, cuja derrisão vai até o abjeto. Estamos diante de um homem que nos causa horror pela maldade e por sua aparência. Lacan descreve Touissant da seguinte forma:
O velho Turelure nos é apresentado com todos os atributos, não apenas do cinismo, mas da feiura. Não basta que ele seja malvado, mostram-no, além disso, manco, um pouco corcunda, odioso. Mais, ainda, foi ele quem fez que cortassem as cabeças de todas as pessoas da família de Sygne de Coûfontaine nos bons tempos de 93, e da maneira mais ofensiva, de modo que ele ainda faz com a que a dama tenha que passar por isso. E mais, ele é o filho de um feiticeiro e de uma mulher que foi ama de leite, e portanto criada, de Sygne de Coûfontaine — de maneira que, quando o desposar, ela estará se casando com o filho de sua empregada e do feiticeiro. (LACAN, 1992, p. 269).
Com a Revolução Francesa, a família Coûfontaine perde todos os bens e seus membros são assassinados por ordem de Touissant. Os únicos sobreviventes são Sygne e seu primo, Georges de Coûfontaine. Sygne está perdidamente apaixonada pelo primo, que retorna do exílio, trazendo consigo o Papa Pio. Sygne aceita esconder em sua casa o Papa foragido, mas Touissant descobre e lhe faz a seguinte proposta: ou Sygne se casa com ele ou ele irá revelar o esconderijo do Papa. Sygne, levada pelos valores da fé, se casa com Touissant. O casamento cristão, diz Lacan, “mesmo o mais execrável, é casamento indissolúvel. Mas isso ainda não é nada. O casamento comporta a adesão ao dever do casamento como dever de amor.” (LACAN, 1992, p. 271). O sacrifício de Sygne simboliza esse dever sob a forma extrema renúncia, o que, para Lacan, é “índicio de um sentido novo dado ao trágico humano.” (LACAN, 1992, p.274). Tudo começou com o Sygne Coûfontaine, que, em nome do dever, abdica do amor, do desejo e da vida. No dia no dia do batizado do seu filho com Toussaint, há uma troca de tiros entre o primo e marido, porque Touissant exige que Sygne transfira todos os bens da família para ele. No momento em que Georges atira em Touissant, Sygne se coloca na frente do marido, recebendo, assim, a bala que lhe era destinado. Touissant atira em Georges e o mata. A partir daí, temos a saga de Louis de Coûfontaine: o filho cujo lugar no discurso familiar é de objeto nem desejado nem amado. Ao contrário de Édipo e de Hamlet, o parricídio é de um pai abjeto. Consequentemente, o lugar do pai simbólico é apagado, fazendo com que se perca a direção do desejo. Assim, o destino de Louis de Coûnfontaine é abrir mão da mulher que ama, Lumîr; praticar o parricídio e casar com a amante do pai, Sichel. Louis, ao contrário de Édipo, sabia o que estava fazendo. Em oposição a Hamlet, Louis não amava e nem admirava seu pai. No lugar da vingança em nome da honra, temos o dinheiro, colocando em cena gozo e expulsando o desejo. Ou como diz Lacan:
(…) retira-se ao sujeito o seu desejo e, em troca, enviam-no ao mercado, onde ele entra no leilão geral. Mas não é isso, justamente, o que acontece no início, no andar de cima, e ilustrado, então, de maneira bem diferente, feita, desta vez, para despertar nossa sensibilidade adormecida? Quero dizer — não é isso o que acontece no nível de Sygne.
A ela, retira-se tudo, não digo que seja por nada, deixemos isso mas é absolutamente claro, também, que é para dá-la, a ela, em troca daquilo que se retira, ao que ela pode mais abominar. (LACAN, 1992, p.316).
Na imagem do pai humilhado, temos a degradação imaginária do Outro, na medida em que a barra, como índice da falta de Um significante, passa a ser vista, imaginariamente, como falha. O desejo é substituído pelo gozo. Não há renúncia sem recalque e não há recalque sem retorno do recalcado. Assim, os sintomas, como efeitos da degradação da imagem paterna, se enviscam nos objetos ofertados pelas técnicas advindas da ciências para mascarar, simultaneamente, o mal-estar da condição humana e o mal estar da civilização.
Os novos objetos, embalados em pacotes estandardizados, moldam o gozo às necessidades forjadas pela publicidade e alimentadas pela ciência. Assim se descortina para o homem contemporâneo, reduzido à condição de objeto e jogado na mais profunda solidão, um admirável mundo novo. As máquinas oferecem um mosaico de informações que, para se ter acesso, basta, sem sair de casa, apertar um botão. Os discursos dominantes exigem que todos se tornem um self made man. A indústria farmacêutica enriquece nos rastros da ciência, oferecendo remédios que prometem a cura do mal-estar e substituem o dizer pela ação de engolir uma pílula ou tomar uma injeção. A indústria erótica, aproveitando-se do pânico da AIDS, cresce e se torna um dos comércios mais lucrativos. A insegurança e o medo do desemprego se fortificam diante das mudanças de diretrizes governamentais em relação às conquistas sociais.
É neste contexto que novos significantes entram em circulação. Para o século XIX, a palavra povo colocava em jogo uma série significante: o público, o privado, o nacional, a criação espontânea, a história, o social, o camponês, o proletário, o rico, o burguês, etc… Em torno dessa constelação significante se estruturavam os discursos que sustentavam as utopias.
Com a época industrial (modernidade), entra em cena o significante multidão que será, posteriormente, substituído por massa, cuja significação gira em torno da noção de quantidade e volume. Jean Baudrillard interpreta o sentido que este significante adquire no próprio título que escolhe para seu livro: À sombra das maiorias silenciosas. Para este autor, o emprego da palavra massa aponta para o que restou, quando se esqueceu tudo do social. Todos nós fomos transformados em números para as estatísticas de mercado, ficando reduzidos aos grupos de classe A, B ou C. De massa à anônimos foi só uma questão de tempo. Há muito tempo, o jornal O Globo fez uma reportagem sobre as casas noturnas do Rio de Janeiro. O tom de surpresa da reportagem se referia ao fato de que as casas preferidas pelos jovens não eram frequentadas por “famosos”. Outra reportagem, no mesmo jornal, tendo como tema a religiosidade, referia-se aos cidadãos pobres como anônimos. O discurso universitário passou a nomear de produtos as atividades acadêmicas, que são classificadas de acordo com os indicadores (publicações, participações em congresso, orientações de teses, etc). criados pelos órgãos governamentais.
Se a partir do século XVIII, estavam criadas as condições técnicas que permitiriam o aumento das tiragens do livro e do jornal, tornando a palavra impressa o principal veículo de informação, em nosso século, ela é substituída pelo rádio, pelo cinema, pela televisão e pela informática, não sem razão chamados de meios de comunicação de massa. Cria-se, a partir daí, uma nova sintaxe para a transmissão das mensagens: o fait divers. O contexto de onde se pinça um acontecimento é deslocado para que o evento seja transmitido como um show, onde a grande atração é apresentá-lo como uma aberração, quer da natureza, quer da cultura. Brigas conjugais das estrelas cinematográficas ou da TV, catástrofes climáticas, previsões astrológicas, queda de um presidente, explosão de uma guerra civil, conflitos raciais e políticos são alinhavados em relações de continuidade para serem apresentados como um grande espetáculo de variedades.
Os discursos, transmitidos pelos meios de comunicação de massa, constroem relações significantes que produzem signos estereotipados, visando a captura de um sujeito adormecido, que recebe placidamente os objetos que lhe são oferecidos para usufruto do seu gozo. Para homogeneizar o gozo, condicionando-o aos objetos do mercado, é preciso comandar as escolhas e criar as necessidades. Uma personagem do filme de Wim Wenders, O Céu de Lisboa, encontra com Winter, a quem tinha mandado uma carta, pedindo que viesse o mais rápido possível para fazer a sonoplastia de seu filme sobre a cidade de Lisboa. Depois de muitas peripécias, causadas por desencontros, Winter descobre que seu companheiro de trabalho desistiu de fazer o filme. Inconformado, interpela a desistência e recebe a seguinte resposta:
As imagens não são mais o que eram. Não se pode mais confiar nelas. Todos sabemos disso. Você sabe, antes as imagens contavam histórias e mostravam coisas. Agora elas vendem histórias. Elas mudaram diante de nossos olhos. Nem sequer sabem mais como mostrar as coisas. Simplesmente esqueceram. As imagens estão vendendo o mundo, Winter. E com um desconto enorme. (…) Não há esperança.
Diante da falta de esperança resta sempre um trabalho a fazer. E o filme termina com os dois trabalhando no filme. Mas isto é outra questão. Não basta produzir mercadorias, é preciso gerar demandas. Da sigla do objeto se extrai as imagens em torno das quais se constrói o discurso da publicidade. A função da marca é introduzir o objeto numa rede de associações significantes, fazendo com que se individualize e adquira significações que o tornem desejável. Só assim o objeto se torna sustentáculo da promessa de um gozo-a-mais. Trata-se de uma estratégia que se constrói a partir do que é próprio da estrutura de um ser submetido às leis da linguagem. Se umas das faces da castração é o não haver da relação sexual, logo o que se vende é o que não há para ser comprado. Mas se não há, é por isto mesmo que os objetos são apresentados como fetiches para tomar o lugar de um parceiro humano e gerar relações de dependência que venham substituir os laços entre os homens.
E o que está em jogo no fetiche? “O fetiche — responde Lacan — é uma transposição do imaginário. Ele se torna um símbolo.”(LACAN, 2005, p. 49). O fetiche é um símbolo do falo. No discurso da publicidade, o objeto se apresenta para mais além de sua própria imagem. Aqui entra em cena a grife. Ou seja: outra imagem que se constrói em torno de significantes que nada têm haver com o objeto. Justamente por isto, não se trata de qualquer objeto para satisfazer uma necessidade, mas exatamente aquele, daquela marca x, porque o que está jogo não é o objeto mas as imagens que a ele foram associadas. Parafraseando Lacan, o discurso publicitário se estrutura em torno de um mais além nunca visto. As imagens que circundam o objeto têm como função transformá-lo em signo de gozo a fim de que como objeto-fetiche possa ser apresentado não só como símbolo da ausência do falo mas também como o símbolo que viria preencher esta ausência. São essas imagens forjadas que cativam, fascinam e capturam um olhar. É na repetição incessante dessa sintaxe que se produz o feedback da própria publicidade. Hoje, qualquer lixo se torna vendável, porque só traz dividendos o que é reduzido a uma imagem. A fetichização não se restringe aos produtos, mas também se dirige ao sujeito, reduzindo-o à condição de objeto.
O simulacro de um jogo de interesses, que, durante muitos séculos, permaneceu recalcado nos discursos, retorna. Isto poderia ter tido como efeito a revelação da prática política, tal como foi teorizada por Maquiavel. Ou seja: o exercício de um cinismo perverso. Mas o que aconteceu foi um deslocamento: o acento se transferiu da retórica para a figura, inscrevendo o candidato no mercado dos objetos. Logo uma campanha eleitoral se faz em torno da produção de uma imagem e não de projetos. Se não fosse assim, como explicar a necessidade da candidata a presidente da república, Dilma Rousseff, fazer plástica no rosto? Retrocedendo um pouco no tempo, a fim de atenuar as paixões que envolvem as disputas políticas, lembro de um artigo que Josias de Souza escreveu, na Folha de São Paulo, com o título Erundina é Maluf, e vice-versa:
(…) Bons tempos aqueles em que tudo o que tínhamos a fazer era optar entre o candidato progressista e o reacionário.
(…) Pois a TV resumiu a eleição em São Paulo a um jogo de falso e verdadeiro. Joga-se o futuro da administração do terceiro orçamento do país na arena da publicidade.
Olhe para mim. Sou a Erundina. Não tenho bandeiras vermelhas à minha volta. Já não defendo a luta armada. Não, não. Mudei, amadureci. Quero ser parceira do empresariado. Eu era vinho. Virei água. Acredite, acredite.
Agora olhe para mim. Sou o Maluf. Já não penso em erigir túneis, em rasgar avenidas. Também mudei. Meu nome agora é social. Ergui trocentos cingapuras. Levei saúde aos pobres. Escolhi um candidato negro. Eu era assim. Fiquei assado. Confie, pode confiar.
(…) O Muro de Berlim foi vendido aos turistas, em pedacinhos, no histórico ano de 89. Mas só agora o conflito de Leste-Oeste parece chegar ao fim na Paulicéia. A guerra ideológica, que se imaginava eterna, desaparece como que por encanto. Mais um pouco e não se conseguirá distinguir PPB de PT. (FOLHA DE SÃO PAULO. Terça feira, 6 de agosto de 1996).
Precisamente cinco dias depois desse grito de indignação contra a fetichização da prática política, o mesmo jornal (FOLHA DE SÃO PAULO. Domingo, 11 de agosto de 1996) dedica uma página inteira a performance paterna dos candidatos em relação aos seus filhos… E, em 2007, Maluf é um dos deputados federais mais votados…
A imagem tem valor de signo e, como tal, representa alguma coisa para alguém. O sujeito, colocado no lugar de objeto, é reduzido a uma imagem pelos discursos da publicidade, da política, da universidade e da ciência. Estamos vivendo a ditadura das práticas médicas, o imperialismo das técnicas e dos números. O corpo, apartado do sujeito, é abordado como uma máquina de funcionamento automático que enguiça e precisa ser consertada. No campo do saber científico brilha, como astro de primeira grandeza, as pesquisas genéticas, embora as novas práticas, advindas de suas descobertas, só sejam acessíveis ao nível da notícia, permanecendo distantes, dependendo dos países e das práticas, a uma faixa da população, cujo poder aquisitivo não lhes permite acesso. No caso dos países do Terceiro Mundo e, em especial, o Brasil, essas técnicas estão restritas a uma minoria e a maioria continua morrendo por total desprezo e abandono governamentais.
A estratégia fetichista visa não só o exílio dos homens, mas também o fechamento de suas bocas e seus ouvidos. Parafraseando Fernando Pessoa: Dizer não é preciso. Desejar não é preciso. Gozar é preciso. E novos objetos não param de ser produzidos. Há mais de dez anos, dois pesquisadores do Centro Regional de Pesquisas do Departamento de Agricultura, em Nova Orleans, descobriram Tyrone Vigo, apelidado de “tecido inteligente”: não encolhe, esquenta no frio e esfria no calor. A sua entrada no mercado é anunciada para a fabricação de uniformes esportivos, de trabalho e para sapatos. Um produto que se encaixa perfeitamente na imagem vendida do corpo como objeto saudável. Enfim, aqueles que são considerados “doentes”, assim como os desempregados, os miseráveis, os toxicômanos, etc, são os restos produzidos e como tais são marginalizados. É justamente em função desta estratégia que os gordos, em vez de serem escutados, devem se tornar consumidores das clínicas de emagrecimentos, dos remédios moderadores de apetite e objetos de intervenção cirúrgica, como é o caso do diagnóstico de obesidade mórbida. É preciso também punir os professores universitários que não se enquadram no “padrão de qualidade”, que tem como princípio a quantidade. Aliás, recentemente, assisti a uma reunião de Pós-Graduação, que ilustra de forma patética o momento em que vivemos: depois de ouvir a explanação que os professores devem produzir pelo menos x produtos, com x deles do indicador 1, as luzes foram apagadas para que fossem projetadas na tela uma listagem de atividades e imagens de capas de livros e fotos. Os livros eram tantos que, ao final, a tela ficou coberta deles. Ao som de Roberto Carlos, fotos dos professores em suas viagens pelo mundo encerram o show. Não me perguntem os temas e os assuntos abordados pelos livros, porque não dava para ler. Também não me perguntem sobre as pesquisas. Os números são o que conta. Os números! Quanto às pesquisas genéticas, elas acenam com a Promessa de revelar o insolúvel enigma da Diferença sexual e de colocar por terra toda a teoria freudiana sobre a sexualidade humana. Em 1996, portanto há muito e muito tempo, O Jornal do Brasil apresentou uma entrevista com a seguinte chamada: GAYS JÁ NASCEM GAYS. O entrevistado era Chandler Burr, um jornalista americano, especializado na área científica, que acabou de publicar um livro (The search for the biological origins of sexual orientation), onde apresentava uma síntese das várias descobertas neste campo:
(…) a orientação sexual humana (…) é determinada geneticamente antes mesmo do nascimento. Trata-se de uma determinação exclusivamente biológica e não há fator social que possa criá-la ou mudá-la. O homossexualismo é imutável.
Já foi encontrado um gene no cromossomo X de homens gays que os cientistas dão como praticamente certo de que seja o gene gay, mas ainda não podemos dizer que encontramos o gene (ou os genes) que determina o homossexualismo.(…) Acredito que em 5 ou 10 anos no máximo este gene será localizado.(JORNAL DO BRASIL. 23 de Julho de 1996).
Apesar de admitir que o gene ou os genes ainda não foram descobertos, ele afirma categoricamente que a “orientação sexual é transmitida através das gerações do mesmo modo que os olhos azuis”. Em seguida ele diz: “Eu, por exemplo, soube que era gay quando tinha seis anos de idade. Não sabia o que era homossexualismo, mas sabia que era diferente dos outros garotos”. É interessante também comentar a repercussão que este livro teve nos Estados Unidos. Os participantes de grupos, que se auto-intitulam gays, apesar de terem recebido uma resposta para a escolha de suas posições sexuais, manifestaram grande preocupação, porque, em tese, num futuro próximo, as mulheres poderiam fazer um teste genético e, ao descobrirem que seu filho ou filha seria homossexual, poderiam querer fazer um aborto ou uma cirurgia para modificar este fator genético. E nos rastros da ciência, surgem novos apologistas. No mesmo ano, Gore Vidal, escritor americano que faz o prefácio do livro A invenção da Heterossexualidade, de Jonathan Ned Katz, lançado, entre nós, pela Ediouro, depois de dizer que a teoria de Freud vai “finalmente implodir como a antiga Iugoslávia”, afirma que a heterossexualidade é “um conceito fatídico de origem recente, de consequências terríveis e fundamental para as noções muito estranhas da sexualidade humana que Freud e seus discípulos nos impuseram durante um século”. (FOLHA DE SÃO PAULO. Terça-feira, 6 de agosto de 1996).
Os mitos não desapareceram. O amor como promessa de felicidade se deslocou para a crença de uma sexualidade sem traumas. Primeiro, os movimentos libertários dos anos sessenta, que tiraram as amarras morais do puritanismo do século XIX. Depois, as pesquisas genéticas que prometem desvendar o enigma que comparece na falta do significante do Outro sexo.
As descobertas genéticas e as novas técnicas da prática médica introduzem o debate em torno de questões éticas. Mas este retorno não remete para a tradição filosófica, onde a reflexão tinha como fim orientar as práticas em direção ao Bem. A ética, hoje, se inscreve diretamente na necessidade de se criar uma legislação que regulamente as novas práticas advindas das descobertas que não cessam de se multiplicar. Até os filósofos já admitem essa transformação. Alain Badiou, por exemplo, depois de constatar “a inflação socializada da referência à ética”, define o seu sentido, hoje, como
um princípio de relação com “o que se passa”, uma vaga regulação de nossos comentários sobre as situações históricas (ética dos direitos humanos), situações técnico-científicas (ética do ser vivo, bioética, situações sociais (ética do estar-junto), situações ligadas à mídia (ética da comunicação. (BADIOU, 1995. p.16)
A Folha de São Paulo,em um dos seus editorias, destaca o fato, bastante divulgado entre nós pela televisão, que se passou no Reino Unido, onde o aborto é legal até a vigésima quarta semana de gestação, de uma mulher que abortou um dos fetos por não ter condições de criar dois filhos. Eis alguns trechos da matéria que, por ter adquirido importância, mereceu o destaque de um editorial.
(…) A ausência de um código de ética mais apropriado aos até antes jamais vistos avanços
científicos e o agravamento dos problemas sociais mesmo no Primeiro Mundo levam a certas situações de fatos chocantes.
(…) O fato é que os modernos diagnósticos pré-natais, as novas tecnologias de engenharia genética e técnicas de fertilização suscitam muitas questões éticas para as quais a humanidade ainda não encontrou respostas.
(…) Infelizmente, a ciência parece andar muito mais rapidamente do que a necessária reflexão ética exigida por qualquer sociedade enquanto tal. ( BADIOU, 1995. p.16.. O grifo é nosso).
A discussão em torno da perplexidade das práticas médicas com a genética não é exclusividade dos países do Primeiro Mundo. Aqui, também, há protestos. Só que com uma pequena grande diferença. Na Inglaterra, a gritaria em torno do aborto dos fetos gêmeos é um protesto contra a legislação em vigor. Mas, em nossa terra, onde as leis são esquecidas nos papéis em que foram escritas, o horror adquire outras faces. Fato, aliás, que circula nas ruas. Em qualquer botequim da esquina, ponto de encontro, depois do trabalho, para se tomar uma cachaça ou uma cerveja, bebidas de preferência nacional, escuta-se: há leis que pegam e leis que não pegam. Bem, neste país, que já foi vendido, antes da miséria se espalhar pelas ruas dos grandes centros urbanos, em cartão postal para a Europa como Paraíso Tropical, as clínicas, em pleno rigor da impunidade, cometem genocídio dos velhos e violam a legislação do Conselho Federal de Medicina em relação às técnicas de fertilização artificial. A televisão mostrou os donos da clínica Santa Jenoveva, sorrindo e com direito a recepção, que dizem que foi comprada, saindo da prisão, na qual ficaram um brevíssimo tempo, mas que foi suficiente para “acalmar os ânimos”. Segundo o Dr. Milton Nakamura, aquele que produziu o primeiro bebê de proveta na América Latina: —“o que conta é o desejo do casal.” Aliás, esta inseminação foi considerada, nos meios científicos, um grande êxito, porque este bebê, que se chama Ana Paula Caldeira, tem QI 140.
O panorama é sombrio. O assassinato do sujeito e a substituição do desejo pelo gozo são as condições para o ingresso no Império dos Sentidos. Lá, os seres falantes são classificados pelos usufruto dos objetos: famoso, uniclass, vip, top, personalité, cliente especial, etc…
Do Nome-do-Pai, como representante da Lei, resta a figura enfraquecida de um pai impotente. Sem esperança, os homens vão sendo encurralados para o silêncio. Resta o gozo de um sacrifício. Assim, Lacan, em Télévision (LACAN, 1974), afirma que a tragédia do homem de nosso tempo se reduz em assumir um gozo que lhe causa horror.
Nadiá Paulo Ferreira
Psicanalista
Referências Bibliográficas
BADIOU, Alain. Ética: um ensaio sobre a consciência do mal. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1995.
FOLHA DE SÃO PAULO. 11 de agosto de 1996.
FOLHA DE SÃO PAULO. 6 de agosto de 1996.
JORNAL DO BRASIL. 23 de Julho de 1996
LACAN, Jacques. «Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise» (1953). In Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed.,1998.
——. Nomes-do-Pai. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed., 2005.
——. O seminário, livro 16: de um Outro ao outro. (1969-1968). Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed., 2008.
——. Télévision. Paris: Seuil, 1974.
WENDERS ,Wim. Lisbon story (O Céu de Lisboa), 1994.
Este artigo já foi publicado em Reflexões sobre a contemporaneidade. Revista De Psicologia, 3(2), 70-75. Recuperado de http://www.periodicos.ufc.br/psicologiaufc/article/view/12
