Paula Saraquine

Prece:

Adoro olhar o mar. Naquela manhã resolvi levar poesia para fazer oferendas. Colhi em minha estante um poema de uma amiga que tem na alma a poesia que arde e que transborda até nos alcançar. Levei também os Manuscritos de Felipa. 

Escolhi alguns versos para dizer. Para você, leitor, posso confessar: escondi do mar que as palavras que sairiam de minha boca não me pertenciam. Mas acredito que a doce Cecília não se importaria, afinal uma vez ditas e por outros acolhidas no coração, deixaram de ser propriedade dela. 

Bom, abri na página 34 e algumas linhas do poema “Castelos de Areia” estavam grifadas. Recitei-as em tom de oração:  

“O brilho verde do mar afaga a alma
Meu olhar flutua nos diferentes tons de verde
Mar salgado
Doce brisa.” 

Olhei novamente para suas águas e uma onda tocou os meus pés. Acho que recebi de volta um afago. 

Naquele dia, não levei cadeira. Sentei na areia fina e me perdi em sua imensidão. Pensei nas rochas que se desmancharam para que hoje os grãos pudessem contornar os oceanos. Olhei , com piedade, a praia e, naquele momento, grãos de areia se levantaram no ar e tocaram o meu rosto. Mais um afago recebi, mas percebi que aquele carinho tinha um toque piedoso também. Me senti como ela… Quantas vezes o medo, a culpa, a saudade derrubaram os muros de minha fortaleza? 


A culpa que me faz olhar para trás, e tentar refazer o que já foi escrito. Tento sempre me explicar que “tudo bem, é só não repetir”.  Mas a culpa parece com as ondas do mar: às vezes chegam mansas e não nos assustam, mas em outras podem nos transformar em grãos. 


O medo da morte, o medo da vida, o medo de mudar, o medo das mudanças, o medo do que é bom acabar.. Tantas vezes, falei para o mar, esse sentimento tomou conta e fez sair de mim águas tão salgadas quanto as suas. 

Sentada ali, em frente ao mar, senti saudade de mim mesma. Da menina cheia de sonhos, da mulher que me tornei, da mãe rodeada dos filhos que precisavam de seu colo, do seu carinho dos seus conselhos… Senti saudade da casa cheia, das camas desarrumadas, dos sapatos espalhados pelo chão… Olhei novamente para o mar e ele me confessou que sentia falta das caravelas que deslizavam lentamente em suas águas, dos homens que o desbravaram e chegaram a lugares desconhecidos, do respeito que antes impunha por ser “tenebroso”. Mas confidenciou também que ele é o mesmo.

Naquele momento, Adélia Prado entrou na conversa. Até então, ali presente ao meu lado, ouvia discretamente minha conversa com o mar.  Mas ao escutar as palavras “medo”, “culpa” e “saudade”, pediu ajuda à brisa suave. Prontamente o vento tocou no livro “Manuscrito de Felipa” e suas palavras chegaram aos meus olhos: 


“Também não posso passar a vida toda me lembrando de quando tinha dezessete anos e amanhecia comendo o mundo, tão feliz que acendia lâmpada com os olhos. Cadê eu? Estou aqui, sou a mesminha.” .

Fechei os livros e olhando para o horizonte, fiz minhas orações para agradecer por ter o mar, a areia, a brisa e a poesia. Naquele instante, a fé na natureza me fez compreender que não existe vida sem medo, sem culpa, sem saudade. 
26/08/2019


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