Vivian Pelodan

A Persistência da Memória, Salvador Dalí, 1931

Eu nunca soube definir:

Eu nunca soube definir a profundidade do poço. 
Alguém?

Uma rua e o pó subindo no rastro do carro. 
A cara mascarada perdendo-se no espaço. 
A imagem do céu visto, passado, fundindo-se na nuvem suja que poderia despencar.
Quando perdemos esse tempo? 
Quem?

Nunca li nada sobre o tempo perdido 
— e o passamos sem jeito de saber 
— o escrevi. 
Onde?

Algo fora da ordem que conhecia 
— sem nunca ter faltado às aulas da vida todinha 
— sobre vivê-la. 
Sem saber que seria tarde para decifrar o que aprendia. 
Ninguém?

Os rostos cegos da janela principal iniciam o alvoroço mais doido e doído que um dia pensei. 
Existiam?
Era promessa quando minha alma, ainda pequena, sentia. 
Era uma vaga ideia de nunca realizar o medo e que ele era apenas fantasia. 
Quais?

Senti tanto medo da rua. 
Medo de ser apenas mais um certo alguém saindo de casa e querendo alimento ou vida como ninguém.
Senti medo de não ter sorte e morrer numa rampa que nunca subia. 
Esquecida?

Sentidos. 
Aflitos. 
Urgentes.
O que é pior que o medo de abrir a porta? 
Alguém?

Do mapa que contém o mundo, saltei. 
O círculo que fantasio não me faz saber onde errei ou se acertei. 
Talvez?


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