Bom seria
A gente não se habitua
Mas como bom seria
Ter esperança fresquinha
Todo bendito dia
A gente não se habitua
Mas como bom seria
Acolher o medo
E a verdade que vai passar
Embora nunca acabe
A gente não se habitua
Mas como bom seria
Saber que o momento é fugaz
E nem por isso desimportante
A gente não se habitua
Mas como bom seria
Esperar pacientemente as horas
Que não chegam
Ou não se demoram
A gente não se habitua
Mas como bom seria
Oferecer mais risos
Que indiferença
A olhar por dentro e com culpa
Os invisíveis
A gente não se habitua
Mas como bom seria
Cuidar da natureza íntima
Afrouxando os nós
A gente não se habitua
Mas como bom seria
Perdoar nossos pais
Pelas faltas e excessos
Que cometeram
E que inevitavelmente
Repetiremos com nossos filhos
A gente não se habitua
Mas como bom seria
Proteger a Terra
Estancar a dor
Suavizar o grito
Ainda antes que se agigante
A gente não se habitua
Mas como bom seria
Acalmar o desespero
Brindar a morte
E seus finitos recomeços
https://www.artmajeur.com/pt/silvanaoliveira/artworks/12368624/o-milagre-da-metamorfose
Carla de Almeida
Psicóloga e curiosa do cuidado através da literatura
