Domesticação do Sintoma & Desejo para sempre esquecido

HÁ MUITOS E MUITOS SÉCULOS apareceu o ser falante…
ASSIM nasceu as Línguas, a Linguagem, e o Inconsciente…
EM TEMPO esses estranhos seres que falam proibiram o incesto…
ASSIM Claude Lévi-Strauss (1908-2009) descobriu nesse ato o aparecimento da cultura.
MUITOS SÉCULOS se passaram… até nascer Sigmund Freud (1856-1939), que descobriu o Insconsciente, revelando ao mundo, que o homem é regido por leis que escapam a razão…
ENFIM nasceu um dos maiores discípulos de Freud: Jacques Lacan (1901-1981). Ele se interessou pela nova ciência, criada por Ferdinand de Saussure (1857-1913) ― a Linguística ― e por um dos seus discípulos, Roman Jakobson (1896-1982)… Daí nasceu o seu famoso axioma: “O inconsciente é estruturado como uma linguagem”.
Quando um ser falante nasce, temos um corpo vivo, inacabado, em estado de puro gozo, cercado de palavras (significantes) por todos os lados. Este recém-chegado ao mundo, ao contrário dos animais, não porta em seu imaginário um saber sobre sua espécie. Esta ausência de saber é chamada por Lacan de furo real no imaginário humano. Dos representantes do Mundo — Outro como lugar dos significantes — depende a sobrevivência do recém-nascido, marcado pela impossibilidade de ter acesso à experiência de completude.
DO NASCIMENTO À CHEGADA DO ESPÍRITO SANTO, nasceu o milagre: a transformação de um corpo vivo em um corpo marcado pelo significante Nome-do-Pai (Lei), transmitido pelo Desejo-da- Mãe, inaugurando o desejo como “a marca do ferro do significante no ombro do sujeito que fala.” Lacan se refere a este acontecimento como o momento de corte, em “que é assombrado pela forma de um farrapo ensanguentado: a libra de carne paga pela vida para fazer dele o significante dos significantes, como tal impossível de ser restituído ao corpo imaginário: é o falo perdido de Osíris embalsamado.”
MAIS UMA VEZ, Depois de muitos e muitos séculos…
APARECEU a religião do Amor, do Três em UM que, segundo Lacan, veio para ficar: a incomensurabilidade do amor divino oferece a contrição para a salvação ou para a perdição, o que não é pouca coisa, pois a Promessa de Eternidade inclui o Paraíso.
AMAR ou GOZAR: eis a questão.
Amar o próximo como a si mesmo é uma escolha que retira de cena o desejo e a diferença sexual. O caminho para o gozo-mais, prometido por Deus, poderia ser sintetizado nos ensinamentos: “Crescei e multiplicai-vos”, “Imitai os lírios do campo, eles não tecem e não fiam”. As pulsões, reduzidas à famosa “maturidade genital”, são colocadas a serviço da reprodução da espécie. Assim a pulsão é retirada de cena e, no seu lugar, é colocado o amor divino. Quem tece e produz relações é o significante. É o simbólico que humaniza o homem, introduzindo-o no universo da palavra (significante). Deus, em Nome-do-Amor, exige do homem a renúncia de sua própria humanidade. Este é o cerne da tragédia moderna introduzido pelo cristianismo. O sentimento de culpa religioso se constitui na violação do desejo do Outro, desejo de Deus, o que faz necessário a criação de personagens, representados pela serpente, que levou Eva à tentação, inaugurando o pecado original, e pelo anjo decaído, que se revoltou contra o poder divino e, a partir daí, insiste em persuadir os homens a trair os dogmas estabelecidos em Nome-de-Deus.. A culpa, aqui, tem um agente — Demo/Outro — o que faz com que o sujeito seja desculpabilizado.
O homem já traz dentro de si mesmo a tendência para não resistir às tentações. O ritual de purificação do batismo é necessário para expurgar o pecado original. A ablução litúrgica (purificação por meio da água) não o livra de cair em tentação. Há o Outro, O Demo, mas há, também, a outra face do amor divino, que é o perdão. Entretanto, o homem para merecê-lo deve se entregar à expiação. Admitir a culpa, sua máxima culpa, que se torna sinônimo de sacrifício do desejo, o qual, ainda, implica a prática da caridade.
Não bastasse a religião, a mensagem científica de nossa época também elimina a culpa, anulando a implicação do sujeito com seu sintoma. Assim, o mal-estar subjetivo é reduzido a uma herança genética descoberta ou a vir a ser descoberta pela genética molecular, o que acena com a promessa de cura ou de alívio pelas intervenções cirúrgicas ou pelos produtos farmacológicos.
Assim os discursos, que predominam na contemporaneidade, têm como ponto de convergência privilegiar o gozo, eliminar o desejo e ignorar a dimensão subjetiva do sintoma. Entre a religião e a ciência caminhamos.
O apelo ao consumo dos objetos e ao sacrifício do desejo se vincula à promessa de um gozo-a-mais, quer seja pela via fálica, quer seja pela via não-fálica (Salvação eterna do ser). A singularidade de cada sujeito é anulada e submetida às modalidades das leis do mercado ou aos preceitos religiosos.
Não há recalque sem retorno do recalcado. O desejo que morre, renasce, provocando mal-estar. Não há foraclusão sem reaparecimento do foracluído no real. No corpo aparecem letras que rasgam a carne e o fazem sangrar. Se o desejo é substituído pelo amor ao próximo, sabemos que isso vai desembocar no ódio à diferença, ou seja, em toda espécie de intolerância e militância.
De um lado a ciência e a religião, discursos que insistem em retirar a marca da condição humana, encarcerando o desejo. De outro lado, a psicanálise: uma prática, que se sustenta na ética do desejo, e uma teoria sobre o homem e sua existência no mundo, baseada num conceito de estrutura, que inclui o imaginário (campo do sentido), o simbólico (significante) e o real como impossível. Como seres falantes, estamos sempre ao meio, longe do Tudo, cercando o que não há. É justamente isto, que nos ensina o poeta Fernando Pessoa:
Há dois males: verdade e aspiração,
E há uma forma só de os saber males:
É conhecê-los bem, saber que são
Um o horror real, o outro o vazio –
Horror não menos – dois como que vales
Duma montanha que ninguém subiu.
Se o milagre fracassa, produzindo novos sintomas, que resistem aos remédios e às cirurgias, uma nova causa é encontrada: a desordem do mundo. A eliminação da dimensão ética nas escolhas subjetivas possibilita o advento da posição de vítima. Desse lugar, o sujeito não faz outra coisa senão se queixar do Outro em suas mil faces…
Pecadores ou belas almas não precisam desejar porque encontraram na Fé ou no Saber seus álibis quase-perfeitos. Pobres infelizes, inocentes e culpados encontram nas lamentações o alimento de seus sintomas e a fonte de suas satisfações…
Tudo inventado por Deus, Aquele que sabe o que faz e o que diz, ou pela mensagem científica que oferece as descobertas de novas técnicas para burlar o que não se quer saber, isto é, para permanecer na ignorância da Castração, retirando de cena o real.
É bem verdade que os álibis sempre foram inventados pelo homem e nunca foram suficientes para eliminar o mal-estar. Talvez essa premissa não justifique a afirmação de que, nos tempos em que vivemos, o lugar da psicanálise é de exclusão, porque o que está em jogo é a aceitação da culpa pela via sacrificial ou a eliminação da culpa pela não implicação subjetiva com o que do pulsional causa horror e, justamente por isso, é rechaçado. Renúncia ou Inocência desencadeiam a produção de sintomas.
O sujeito, a se ver como culpado, não rechaça sua implicação com o sofrimento, o que pode levá-lo a procurar uma análise. Mas se o sujeito repele a sua participação no sofrimento, a queixa irá se transformar em fonte inesgotável de gozo. O gozo rechaçado, cada vez mais inadministrável, fará com que o sujeito vá procurar um remédio para aliviar o que lhe causa horror.
Assim, domestica-se o sintoma para que a sua verdade fique para sempre esquecida… O sonho do capitalismo é a produção de uma massa amorfa de consumidores, que recebem embalados, em pacotes estandardizados, os objetos para seu gozo e os remédios para aliviar seu mal-estar.
Sem culpa, o desejo é substituído pela paixão do Saber ou da Fé, a fim de que seja moldado um gozo às necessidades forjadas e alimentadas pela lógica do capitalismo.
A esperança no progresso, que sustentou a prática política dos homens des letras, no século XIX, se desloca para as invenções tecnológicas. Entre hoje e ontem, um intervalo surpreendente não só pelos eventos que aconteceram, mas também pela ausência de aprendizagem. Não seria isso que Freud quiz dizer, quando afirma em O mal estar na civilização (1930 [1929] de que não há progresso?
Estoura a primeira guerra mundial, expande-se o desencanto e com ele o repúdio ao progresso. Em 14 de julho de 1916, O Manifesto do Senhor Antipirina é lido, na primeira manifestação dadaísta, em Zurique.
DADÁ permanece no quadro europeu das fraquezas, no fundo é tudo merda, mas nós queremos doravante cagar em cores diferentes para ornar o jardim zoológico da arte de todas as bandeiras dos consulados.
As atrocidades da guerra de 1914 são esquecidas com a comemoração da queda do regime de Kerenski, com a vitória dos bolchevistas e com a ascensão de Lenin ao poder (1817). A violência do regime socialista é esquecida em nome do ideal iluminista do Bem-comum. Acontece a depressão dos anos 30, a segunda guerra mundial e com ela o genocídio dos judeus. Não se pode negar a contribuição de alguns artistas e cientistas para a limpeza étnica dos nazistas. Basta ver o filme Arquitetura da destruição, 1989, de Peter Cohen.
O mundo é reconstruído. Vem à era das conquistas sociais, e o capitalismo revive os seus anos dourados à sombra das violências raciais e religiosas. Cai o império soviético, o muro de Berlim. Ingressamos na era do desemprego, da perda das conquistas sociais, das guerras religiosas e étnicas e do recrudescer do racismo.
Depois dos fracassos das utopias, as desesperanças aleitam o estupor de um sono mortífero, lançando o homem contemporâneo na mais profunda solidão. Assim, descortina-se para ele um “admirável mundo novo”: as máquinas oferecem um mosaico de informações. E para se ter acesso a elas, basta, sem sair de casa, apertar um botão. As relações de trabalho são o cenário das lutas fratricidas porque se exige que todos se tornem um self-made man. A indústria farmacêutica enriquece nos rastros da ciência oferecendo remédios que substituem o dizer pela ação de engolir pílulas ou tomar injeções. A indústria erótica, aproveitando-se do pânico da AIDS, cresce e se torna um dos comércios mais lucrativos. A insegurança e o desemprego se fortificam diante das mudanças de diretrizes governamentais em relação às conquistas sociais do pós-guerra. Justamente por isto, Lacan, numa entrevista a um programa da televisão francesa, ao se referir ao futuro, anuncia a escalada do racismo e da religião.
É nesse contexto que novos significantes entram em circulação nos discursos dominantes. Para o século XIX, a palavra povo colocava em um jogo a série significante: o nacional, a criação espontânea, a história, o social, o camponês, o proletário, os ricos, os burgueses… Em torno desta constelação significante se estruturavam os discursos que sustentavam as utopias de Liberdade e Felicidade como bens público e privado.
Com a época industrial (modernidade), entra em cena a palavra multidão, que será, posteriormente, substituída pelo termo massa, cuja significação gira em torno da noção de quantidade e volume. Jean Baudrillard interpreta o sentido que este significante adquire no próprio título que escolhe para o seu livro: À sombra das maiorias silenciosas. Para este autor, massa com valor de signo tem como função a dissipação dos significantes, simbolizando o que restou quando se esqueceu tudo do social. A própria palavra público, muito empregada pelos discursos do século XIX, já teve o seu sentido deslocado por este significante e, hoje, é empregada como sinônimo de massa, o que implica que todos nós fomos transformados em números paras as estatísticas de mercado, ficando reduzidos a grupos de classe A, B ou C.
Os discursos, transmitidos pelos meios de comunicação de massa, constroem relações significantes que produzem signos estereotipados, visando à captura de um sujeito adormecido que recebe placidamente os objetos que lhe são oferecidos para usufruto de seu gozo. Para homogeneizar o gozo, condicionando-o aos objetos do mercado, é preciso comandar as escolhas e criar as necessidades. Um personagem do filme de Wim Wenders, O Céu de Lisboa, encontra com Winter, a quem tinha mandado uma carta, pedindo que viesse o mais rápido possível para fazer a sonoplastia de seu filme sobre a cidade de Lisboa. Depois de muitas peripécias, causadas por desencontros, Winter descobre que seu companheiro de trabalho desistiu de fazer o filme. Inconformado, interpela a desistência e recebe a seguinte resposta:
As imagens não são mais o que eram. Não se pode mais confiar nelas. Todos sabemos disso. Você sabe, antes as imagens contavam histórias e mostravam coisas. Agora elas vendem histórias. Elas mudaram diante de nossos olhos. Nem sequer sabem mais como mostrar as coisas. Simplesmente esqueceram. As imagens estão vendendo o mundo, Winter. E com um desconto enorme. (…) Não há esperança.
Não basta produzir mercadorias, é preciso criar demandas. Da sigla do objeto se extraem as imagens em torno das quais se constrói o discurso da publicidade. A função da marca é introduzir o objeto numa rede de associações significantes, fazendo com que este se individualize e adquira significações que o tornem desejável. Só assim o objeto se torna sustentáculo da Promessa de gozo-a-mais. Trata-se de uma estratégia que se constrói a partir do que é próprio da estrutura de um ser submetido às leis da linguagem. Se uma das faces da Castração é não haver a relação sexual, logo o que se vende é o que não há para ser comprado. Mas se não há, é por isto mesmo que os objetos são apresentados como fetiche para tomar o lugar de um parceiro humano e gerar relações de dependência, que venham substituir os laços entre os homens. E o que está em jogo no fetiche? Não é o falo? O discurso da publicidade oferece a via pela qual o homem pode ter acesso à falta do objeto. O objeto se apresenta mais além de sua própria imagem, sendo sustentado por uma marca que se constrói em torno de significantes que nada têm a ver com o próprio objeto. Justamente por isto, não se trata de qualquer objeto para satisfazer uma necessidade, mas exatamente aquele, daquela marca x, porque o que está jogo não é o objeto, mas as imagens que a ele foram associadas. Parafraseando Lacan, o discurso publicitário se estrutura em torno de um mais além nunca visto. As imagens que circundam o objeto têm como função transformá-lo em signo de gozo, a fim de que, como objeto-fetiche, possa ser apresentado não só como símbolo da ausência do falo, mas também como símbolo do que viria preencher esta ausência. São essas imagens forjadas que cativam, fascinam e capturam um olhar. É na repetição incessante dessa sintaxe que se produz o feedback da própria publicidade. Hoje, qualquer lixo se torna vendável, porque só traz dividendo o que é reduzido a uma imagem. A fetichização não se restringe aos objetos, mas também se dirige ao sujeito, reduzindo-o a imagem objetal, o que fez com que pensadores de diversos campos do saber (história, sociologia, filosofia e teoria da comunicação) fizessem o prognóstico do fim da história, do político e do social. Nas elucubrações das mortes anunciadas, a psicanálise estaria incluída? Sobre isto, diz Lacan:
(…) Llamo síntoma a lo que viene de lo real.
El sentido del síntoma depende del porvenir de lo real, o sea, como lo dije en la conferencia de prensa, del éxito del psicoanálisis. Lo que se le pide es que nos libere de lo real y del síntoma. Si triunfa, si tiene éxito en esta demanda — digo esto así, veo que hay personas que no estaban en esa conferencia de prensa, y lo repito para ellas — podemos esperar todo, o sea, un retorno de la verdadera religión, por exemplo, que como ustedes saben, no parece que vaya a declinar. La verdadera religión no es loca, todas las esperanzas le sirven, si puedo decirlo: ella las santifica.
Nós, psicanalistas, sabemos que a imagem não é o objeto, mas um significante, e, como tal, representa alguma coisa para o sujeito. Mas, hoje, sujeito e objeto são reduzidos a imagens pelos discursos da publicidade, da política e da ciência. Estamos vivendo a ditadura das práticas médicas e o imperialismo das técnicas. O corpo, apartado do sujeito, é abordado como uma máquina de funcionamento automático que enguiça e precisa ser consertada. No campo do saber científico brilham, como astros de primeira grandeza, as pesquisas genéticas, embora as novas práticas, advindas de suas descobertas, só sejam acessíveis como notícias, permanecendo distantes, dependendo dos países e das práticas, de uma faixa da população que não tem poder aquisitivo para a elas ter acesso. No caso dos países do Terceiro Mundo e, em especial, o Brasil, essas técnicas estão restritas a uma minoria e a maioria foi jogada ao total abandono governamental.
O êxito da estratégia fetichista visa não só o exílio do homem, mas também o estancamento do seu dizer. Parafraseando Fernando Pessoa: Dizer não é preciso. Desejar não é preciso. Gozar é preciso. E novos objetos não param de ser produzidos. Dois pesquisadores do Centro Regional de Pesquisas do Departamento de Agricultura, em Nova Orleans, descobriram Tyrone Vigo, apelidado de “tecido inteligente”: não encolhe, esquenta no frio e esfria no calor. A sua entrada no mercado é anunciada para a fabricação de uniformes esportivos, de trabalho e para sapatos. Um produto que se encaixa perfeitamente na imagem vendida do corpo como objeto saudável. Enfim, aqueles que são considerados “doentes”, os desempregados, os miseráveis, os toxicômanos, são os restos produzidos e como tais são marginalizados. É justamente em função desta estratégia que é preciso convencer os gordos do perigo da obesidade. Isto feito, eles ingressam no rol dos consumidores das clínicas de emagrecimento, dos remédios moderadores de apetite, das cirurgias de redução do estômago.
Quanto às pesquisas genéticas, elas acenam com a Promessa de revelar o insolúvel enigma da Diferença sexual e de colocar por terra toda a teoria freudiana sobre a sexualidade humana. O Jornal do Brasil apresenta uma entrevista com a seguinte chamada: gays já nascem gays. O entrevistado é Chandler Burr, um jornalista americano, especializado na área científica, que acabou de publicar um livro (The search for the biological origins of sexual orientation) onde apresenta uma síntese das várias descobertas neste campo:
(…) a orientação sexual humana (…) é determinada geneticamente antes mesmo do nascimento. Trata-se de uma determinação exclusivamente biológica e não há fator social que possa criá-la ou mudá-la. O homossexualismo é imutável.
Já foi encontrado um gene no cromossomo X de homens gays que os cientistas dão como praticamente certo de que seja o gene gay, mas ainda não podemos dizer que encontramos o gene (ou os genes) que determina o homossexualismo.(…) Acredito que em 5 ou 10 anos no máximo este gene será localizado.
Mas apesar de admitir que o gene ou os genes ainda não foram descobertos, Chandler Burr afirma categoricamente que a orientação sexual é transmitida através das gerações do mesmo modo que os olhos azuis. É quase óbvio, acredito, que este jornalista fará uma confissão pública de sua opção sexual, o que, aliás, se tornou muito comum, atualmente. Ele diz: “Eu, por exemplo, soube que era gay quando tinha seis anos de idade. Não sabia o que era homossexualismo, mas sabia que era diferente dos outros garotos.” É interessante também comentar a repercussão que este livro teve nos Estados Unidos. Os participantes de grupos, que se auto-intitulam gays, apesar de terem recebido uma resposta para a escolha de suas posições sexuais, manifestaram grande preocupação, porque, em tese, num futuro próximo, as mulheres poderão fazer um teste genético e, ao descobrirem que seu filho ou filha será homossexual, poderão querer fazer um aborto ou uma cirurgia para modificar este fator genético. E, nos rastros da ciência, surgem novos apologistas. Gore Vidal, escritor americano que faz o prefácio do livro A invenção da Heterossexualidade, de Jonathan Ned Katz, lançado, entre nós, pela Ediouro, depois de dizer que a teoria de Freud vai finalmente implodir como a antiga Iugoslávia, afirma que a heterossexualidade é um conceito fatídico de origem recente, de consequência terrível e fundamental para as noções muito estranhas da sexualidade humana que Freud e seus discípulos nos impuseram durante um século.
As descobertas genéticas e as novas técnicas da prática médica introduzem o debate em torno de questões éticas. Mas este retorno não remete para a tradição filosófica, em que a reflexão tinha como fim orientar as práticas em direção ao Bem. A ética, hoje, se inscreve diretamente na necessidade de criar uma legislação que regulamente as novas práticas, advindas das descobertas que não cessam de se multiplicar. Até os filósofos já admitem essa transformação. Alain Badiou, por exemplo, depois de constatar a inflação socializada da referência à ética, define o seu sentido, hoje:
(…) um princípio de relação com “o que se passa”, uma vaga regulação de nossos comentários sobre as situações históricas (ética dos direitos humanos), situações técnico-científicas (ética do ser vivo, bioética, situações sociais (ética do estar-junto), situações ligadas à mídia (ética da comunicação).
A Folha de São Paulo, em um de seus editoriais, destaca o fato, bastante divulgado entre nós pela televisão, que se passou no Reino Unido, onde o aborto é legal até a 24a semana de gestação, de uma mulher que abortou um dos fetos por não ter condições de criar dois filhos. Eis alguns trechos da matéria que, por ter adquirido importância, mereceu o destaque de um editorial.
(…) A ausência de um código de ética mais apropriado aos até antes jamais vistos avanços científicos e o agravamento dos problemas sociais mesmo no Primeiro Mundo levam a certas situações de fatos chocantes.
(…) O fato é que os modernos diagnósticos pré-natais, as novas tecnologias de engenharia genética e técnicas de fertilização suscitam muitas questões éticas para as quais a humanidade ainda não encontrou respostas.”
(…) Infelizmente, a ciência parece andar muito mais rapidamente do que a necessária reflexão ética exigida por qualquer sociedade enquanto tal.
A discussão em torno da perplexidade das práticas médicas com a genética não é exclusividade dos países do Primeiro Mundo. Aqui, também, há protestos. Só que com uma pequena grande diferença. Na Inglaterra, a gritaria em torno do aborto dos fetos gêmeos é um protesto contra a legislação em vigor. Mas, em nossa terra, onde as leis são esquecidas nos papéis em que foram escritas, o horror adquire outras faces. Fato, aliás, que circula tanto nas ruas quanto nas universidades. Em qualquer botequim da esquina, escuta-se: há leis que pegam e leis que não pegam. Um dos ditados que mais circula ao pé do ouvido, nos corredores da universidade é: “para os amigos tudo, para os inimigos a lei”. Bem, neste país, que já foi vendido, antes da miséria se espalhar pelas ruas dos grandes centros urbanos, em cartão postal para a Europa como o Paraíso Tropical, as clínicas, em pleno rigor da impunidade, cometem genocídio de velhos e crianças, violando a legislação do Conselho Federal de Medicina em relação às técnicas de fertilização artificial. Segundo o Dr. Milton Nakamura, aquele que produziu o primeiro bebê de proveta na América Latina, o que conta é o “desejo do casal”. Aliás, esta inseminação foi considerada, nos meios científicos, um grande êxito, porque este bebê, que se chama Ana Paula Caldeira tem QI 140…
O panorama que se abre é sombrio. Mata-se o sujeito, substituindo o desejo como desejo de desejar pela paixão do Saber e da Fé. Assassina-se a singularidade, estabelecendo-se padrões de gozo, sustentados em teorias que reduzem as pulsões a etapas evolutivas, que terminariam na pulsão genital. Difunde-se o anonimato nas práticas universitárias ligadas à pesquisa e à publicação.
Agora, em tempo de COVIDE, as salas de aula, de conferência, de encontro etc foram substituídas pelas telas do Zoom, Skype, Facebook, Instagram e etc. Enfim, recursos técnicos em que a escolha do anonimato predomina, impossibilitando a tessitura dos laços sociais, não só com a platéia, mas também com aqueles que irão se apresentar. Nunca vi em uma sala de aula, em conferência ou congresso, alguns participantes se apresentarem de máscaras, porque não querem mostrar seu rosto, porque são tímidos, envergonhados e etc. Isto foi dito por alguns que participavam de um debate sobre o filme O dia do gafanhoto. Enfim o horror se instala… A maioria ― não-todos ― que fazem uso dos novos meios de comunicação, escolheram o anonimato e a solidão.
Sem mestres, pois os que sobreviveram já estão mortos e deixaram como herança a briga pelo espólio, sem pais, já que a função paterna se apaga, na medida em que se perde a direção do desejo, restando dela, apenas, a figura enfraquecida de um pai impotente, sem esperança e renunciando ao desejo, os homens vão sendo encurralados para a estupidez, e para o anonimato…
Recentemente foi lançado em vídeo o filme Cubo, do diretor Vicenzo Natali. Uma médica, uma matemática, um ladrão que já tinha escapado de prisões, dotadas de sistemas especiais de segurança, um policial e um técnico, que trabalhou no projeto que deu origem à construção do Cubo, são alguns dos personagens que, ao acordarem, se dão conta de que estão enjaulados num labirinto que apresenta armadilhas mortais. Espectadores e personagens nada sabem sobre esse projeto maquiavélico e, paulatinamente, todos percebem que cada um não foi escolhido de forma aleatória, mas em função de uma habilidade ou conhecimento específico que ajudaria a encontrar a saída. Passando de um quadrado a outro, os personagens vão se encontrando. Alguns morrem de forma violenta pelas armadilhas. Um débil mental é encontrado. No desenrolar da trama, a matemática descobre que os números primos, que aparecem em cada quadrado, são coordenadas que indicam a trilha a ser seguida para encontrar a saída. É preciso fazer contas. Necessita-se de uma calculadora. Aí surge a função do débil mental, cuja habilidade é saber fazer de cabeça as contas necessárias, indicando os quadrados que não têm armadilhas.
Resolvida à charada, todos encontrariam a saída. Seria assim, se não fosse a reação de cada um diante do perigo, do medo, da morte, dos desejos não nomeados e dos gozos inconfessos e rechaçados. O recalcado reaparece sob a forma de horror e a grande armadilha, para a qual não há coordenadas matemáticas, está dentro de cada um. Assim, os que restaram matam-se uns aos outros. O filme termina com um único sobrevivente: o alienado, com seu sorriso de parvo.
Alegoria do mundo em que vivemos um corpo vivo e contente, imerso no gozo idiota, caminha em frente, esperando novas ordens para serem cumpridas. Os autores do projeto permanecem no anonimato. Deles só ficamos sabendo do Cubo e de suas vítimas.
Lacan, em um programa de televisão, afirma que a tragédia do homem de nosso tempo se reduz em um gozo que lhe causa horror.
O homem, perdido entre seus objetos de gozo, anseia cada vez mais por esperanças em torno disso que não sabe muito bem o que é, mas que se nomeia de Felicidade. Os discursos da ciência e da religião acolhem essa esperança, na medida em que acenam com a decifração do enigma da sexualidade humana e com a eternidade.
Mas, no reino das esperanças, o inconsciente trabalha, não pára de trabalhar e de produzir um saber. Ele fala. Ele insiste em aparecer nos sonhos, nos atos falhos, em todo dito que escapa à intenção do dizer. Mas é preciso que a fala, que se abre nas lacunas do dizer, seja escutada. Senão as palavras ecoam para o mais absoluto silêncio e retornam para serem gravadas num corpo que se mostra em chagas demandando decifração. Quanto mais se faz escrita na carne mais se estrangula uma boca que se cala, porque um ser falante está dormindo em berço esplêndido.
Tempos difíceis para a psicanálise. Não é em vão que alguns psicanalistas se queixam do declínio da demanda de análise. Tempos que levaram Lacan a se questionar sobre o futuro da psicanálise e dizer: “Lo picante de todo esto, es que en los próximos años el discurso del analista dependerá de lo real, y no al contrario. El advenimiento de lo real no depende del analista en absoluto. El analista tiene por sisión hacerle frente.”
(…) el porvenir del psicoanálisis es algo que depende de lo que ocurra con ese real, a saber, de que los “gadgets”, por ejemplo, se impongan verdaderamente, que verdaderamente lleguemos a estar animados por los “gadgets”. Debo decir que me parece poco probable. No conseguiremos verdaderamente que el “gadget” no sea un síntoma, pues por el momento lo es muy evidentemente. Es muy cierto que tenemos un auto como una falsa mujer; deseamos absolutamente que sea un falo, pero esto no tiene relación con el falo más que por el hecho de que es el falo o que nos impide tener una relación con algo que sería nuestro garante sexual. Es nuestro garante parasexuado, y todos saben que el “para” consiste en que cada uno se quede de su lado, que cada uno se quede al lado del otro.
A questão que permanece em aberto é a indagação sobre as influências que estão sendo produzidas no social pela desculpabilização do sujeito. A clonagem já foi realizada em ovelhas. Mulheres que querem engravidar já podem se livrarem dos homens e se dirigirem a um banco de sêmens, pedindo doadores saudáveis, inteligentes, louros, de olhos azuis… Uma onda de assepsia étnica espreita as pesquisas genéticas. Qual seria a intervenção do psicanalista? Ficar em silêncio? Aderir às normas dos seguros de saúde, que regulamentam o tempo de tratamento de uma enfermidade, diagnosticada como psíquica ou psicossomática? Cair na armadilha e aceitar a renomeação da fobia por “síndrome do pânico”, acrescentando elucubrações que giram em torno da “nova estrutura da subjetividade de nossa época”? Refugiar-se numa língua incompreensível só decifrada pelos eleitos que foram escolhidos pelos deuses para frequentar o Olimpo? Abrir mão do rigor e da seriedade de uma prática para desandar a dizer besteiras que encontram acolhimento nos meios de comunicação de massa?
BIBLIOGRAFIA
BADIOU, Alain. Ética: um ensaio sobre a consciência do mal. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1995.
PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Aguilar, 1977.
FOLHA DE SÃO PAULO. Editorial de 9 de agosto de 1996 com o título Ciência e Ética.
JORNAL DO BRASIL, 23 de julho de 1996.
LACAN, JACQUES, Escritos.Rio de Janeiro:Zahar, 1998.
________________. La tercera. In: Actas de la Escuela Freudiana de Paris. Barcelona: Ediciones Petrel, 1980.
________________. Télévision. Paris: Seuil, 1974.
MANIFESTO DO SENHOR ANTIPIRINA. In: TELLES, Gilberto Mendonça. Vanguarda européia e modernismo brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1976.
Nadiá Paulo Ferreira
Psicanalista
