Iris
Íris era seu nome.
Vivia na terceira margem do rio, quarta esquina da curva do vento, sétima janela a se abrir para o Vale das Fadas que, como ela, trabalham incansavelmente pelo bem estar de todos os seres do mundo, inclusive os humanos.
A Criação jamais fora justa, pensou com seus botões de luz, senão não teria punido, ela e suas irmãs fadas, para sempre condenadas por inexistirem fados, gênero oposto. Fado, dizia-lhe Viviana, sua mentora, significa peso, dor, angústia e sofrimento, daí só existirem fadas, que foram feitas para ser o contrário disso tudo.
Era primavera, e esta se anunciava mais cálida que a anterior. Graças àquele calor inesperado, pela primeira vez desde o início de tudo elas vieram: corpo pequeno, zunzum parecido com o delas, fadas, e grandes asas, como as suas, só que com leves toques de azul mesclado ao verde, sobretudo quando o sol batia ali esguelhado: semelhava uma espécie de cristal que repartia a luz do sol em uma franja de cores que saía daquelas asas.
– O que são? – ela perguntou para Brígida.
– São libélulas – ela lhe respondeu. – Deixe de ser boba, não perca tempo com elas: são só insetos.
Chamá-las de insetos seria como chamar-nos de mulheres pequenas, ousou pensar, e, aproveitando-se da distração de Brígida, pôs-se a voar com elas, misturar-se a elas e a elas sentir-se irmanada, próxima, única, libélula.
Aliás, aquela ali chamara-lhe a atenção: asas maiores e mais azuis, parte inferior do corpo mais arqueada para baixo que as demais, zunzum mais grave e sensualmente sinuoso. Não conseguia mais tirar os olhos daquele ser que lhe inspirava um amor maior do que o que sentia por qualquer dos demais seres da Terra. Na falta de nome melhor, batizou-o de Arco.
Libélulas voavam em bando, bem diferente dos trajetos aéreos das fadas, invariavelmente solitários. E agora ela voava com elas. Elas eram bando, enxame, nuvem, ar, seres pulverizados de asas e de luz refratada. Íris voou ao lado de Arco até se perder nas asas, nos zuns. As libélulas tinham antenas maiores que suas cabeças, como as fadas, como ela. Arco as tinha ainda mais belas.
Lá embaixo, o Vale, a relva, os bichos e os fios de rio entremeados de flores nativas de cores iridescentes e luxuriosas ia se transformando: aos poucos, a variedade de cores e de animais, de rios e de seres da floresta era virada em um imenso tapete verde em que só se via um tipo de planta, desconhecido para ela, estranhamente nascidas a uma mesma distância uma da outra. Se ela olhasse lá longe, o horizonte lhe mostrava aquela gigantesca sequência de linhas e ângulos retos, entre os quais aquelas plantas de mesma espécie espoucavam da terra.
Aquela estranha geometria era interrompida lá no longe pelo ligeiro arco da Terra, almiscarado de tons de laranja que antecipavam o crepúsculo e por uma estranha formação de coloração púrpura e forma semelhante à de qualquer nuvem vulgar. Íris e o bando de libélulas se aproximavam rapidamente daquele colchão purpurado que flutuava no ar da tarde.
Quando entraram naquela nuvem, a primavera à sua volta escureceu, o ar lhe faltou e ela, tanto quanto as libélulas, tanto quanto Arco, tentando sorver um ar que lhe queimava por dentro, perdeu a força das asas e fez o que seria sua única alternativa: planou, planou talvez pela última vez sob aquele céu, certa que estava de que jamais voltaria ao Vale da Fadas.
Planou naquela brisa com o cheiro ácido dos venenos que compunham os defensivos agrícolas.
Planou e tombou próximo do caule de um dos milhares de pés de soja transgênica que transformava aquele mundo e aquela tarde mágica em um grande, gigantesco, imensurável tapete, infinito de verdes, agora coalhado de asas com pedaços de arco-íris que, apenas lembranças da leveza que tinham, tombavam frouxas sobre o solo úmido.
João Peçanha
Professor e Escritor
