balé das quatro estações
eu quero lamber os ventos que te afagam
eu quero deitar com as chuvas que te trazem
eu quero me espalhar na natureza que te abriga
ser o balé das quatro estações em tua vida

delicadeza
ir lá
assumir a vontade
abraçar o prazer
genuíno gostar
leve sorver
íntimo sal
se recolher
calar
ser

essência
na essência
avançar pelas vias sem legenda
por gestos e gritos de alforria
em diálogos insistentes além-mim
saber da pele alva que se despe
ver brilhar os olhos negros que me molham
e sorver de nossas bocas a saliva
deslizes
risco
fenda
sulco
brecha
pinga gota
escorre fio
deslizes
sabor anis e mar

palavras
com palavras me confundo
me envolvo
me alivio
de palavras me visto
me descubro
me sacio
em palavras parto e regresso
nas palavras sem gestos
te procuro e me perco
nos gestos sem palavras
me acho
e te alcanço
ontem, hoje, amanhã, todo dia

nossa bossa
minha força
tua forca
nossa bossa
toda boca
coisa polpa
fala pouca
língua louca
e eu que quase calo
a cama rouca
germinal
grão sideral
no útero do tempo
flutuo úmida
em silêncio germinal
ato
pois
abramos as janelas
para a brisa
fechemos as cortinas
para a pele
desdobremos o lençol
para o suor
e sejamos

Imagens de Danilo Bento
