Angela Duarte

balé das quatro estações

eu quero lamber os ventos que te afagam 

eu quero deitar com as chuvas que te trazem

eu quero me espalhar na natureza que te abriga

ser o balé das quatro estações em tua vida

delicadeza 

ir lá

assumir a vontade

abraçar o prazer

genuíno gostar

leve sorver

íntimo sal

se recolher

calar

ser


essência 

na essência

avançar pelas vias sem legenda

por gestos e gritos de alforria

em diálogos insistentes além-mim

saber da pele alva que se despe

ver brilhar os olhos negros que me molham

e sorver de nossas bocas a saliva

deslizes

risco

fenda

sulco

brecha

pinga gota

escorre fio

deslizes

sabor anis e mar

palavras 

com palavras me confundo

me envolvo

me alivio

de palavras me visto

me descubro

me sacio

em palavras parto e regresso

nas palavras sem gestos

te procuro e me perco

nos gestos sem palavras

me acho

e te alcanço

ontem, hoje, amanhã, todo dia

nossa bossa 

minha força

tua forca

nossa bossa

toda boca

coisa polpa

fala pouca

língua louca

e eu que quase calo

a cama rouca

germinal 

grão sideral

no útero do tempo

flutuo úmida

em silêncio germinal

ato

pois

abramos as janelas

para a brisa

fechemos as cortinas

para a pele

desdobremos o lençol

para o suor

e sejamos

Imagens de Danilo Bento

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