Luiz Claudio B. Magalhães

Estar confortável

Quando criança, sei lá por volta de que idade, entrei a cultivar um hábito peculiar. Não digo singular, único, pois percebi que não me cabia constrangimento por não estar sozinho neste particular. Não me agradavam sapatos novos, preferia-os velhos, laços, já afeitos às formas dos meus pés de moleque.  Sendo o segundo filho, recebia-os de herança. Tive sorte, o mais velho era menino quieto, apaixonado por televisão e quadrinhos. Além de possuir pés magros, direitos. Então, os pisantes vinham quase no ponto, já amaciados, precisando apenas de alargamento e um desbotado elegante. 

O par de sapatos – Vincent van Gogh

Naquele tempo, no século passado, os meninos certinhos engraxavam os sapatos e os tinham sempre brilhando. Meu velho até que me ensinou direitinho. O que o deixou confuso foi ver que eu manejava bem a graxa, a escova e a flanela, mas nunca aplicava tal saber sobre meus próprios calçados. Como o velho é boa praça, não implicava muito. 

Um dia, na escola, Tabajara, meu arqui-inimigo, percebeu que um de meus sapatos estava com a sola furada. Deu um jeito de roubá-lo e começou uma brincadeira que, na época, chamávamos de “barata avoa”.  Jogou o sapato para outro menino gritando, “barata avoa!” O menino, no caso Dico, jogou para outro repetindo o grito. Assim, meu sapatinho preferido voou por todo o pátio da escola.  A brincadeira foi esfriando e parando ao passo que eles perceberam que eu me divertia tanto ou mais que todos. Quando enfim recuperei o meu velhinho, calcei-o saudoso e confortável. Usei-o por muito tempo e usaria mais se minha mãe não tivesse sumido com eles. 

Camiseta Hering branca e velha para dormir, manhãs de sábado, uma xícara de café fresco com pão francês cheio de manteiga, cama limpa, feijão carregado, abraço de amigo…, para mim, traduzem conforto. Custei a entender o que meus pais queriam dizer com “você precisa trabalhar muito pra ganhar dinheiro e ter conforto”.  No início, ao ouvir tais palavras, ficava muito confuso. Não havia nada mais confortável para mim do que estar sob o sol, usando somente um short velho, meus sapatos bem rotos, ou, melhor ainda, descalço. 

Precisei envelhecer e ver muitas vezes crianças brincando satisfeitas com as caixas vazias ao invés dos brinquedos  para perceber o quanto estava certo lá na infância. 

Homem com xícara na mão

Descrição gerada automaticamente

Luiz Claudio B. de Magalhães

Mestre em Literatura Brasileira,

Poeta e Professor.

Vulgo: Kbça. Mestre em Literatura Brasileira e Teoria da Literatura pela UFF. Especializado em Língua Portuguesa pela UFF. Bacharel em Letras e Licenciatura Plena pela UFRJ. Apaixonado pela Literatura, pela Música e pela culinária. Aquariano numa busca pela paz universal através da arte

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