Carmen Lucia Pessanha

De onde vem esta cobrança?

Mais uma vez, o trivial simples. O de sempre, ressurgindo hoje como certamente voltará a me rondar mais dia, menos dia. Isto mesmo: basta que eu venha a pensar alguma coisa ou perceba o brotar de qualquer tipo de sentimento, quase que imediatamente quero registrar a ideia, como se minha fala fosse necessária para quem viesse a tomar conhecimento da experiência vivenciada naquela hora. Escrever por mim e pelo outro.

A experiência de hoje foi sui generis. Dia decisivo envolvendo a saúde de um ente super querido. E as notícias chegaram luminosas: nuvens, antes supostas, dispersaram-se exuberantes; e a luz do sol ultrapassou barreiras que até dijaojinha o encobriam.  Muita luz. Temores afastados e lamentos substituídos por vivas e mais vivas. 

Chorei de doer o peito; e a surpresa veio junto com as lágrimas: de dentro, sem nenhum pensar, coisa brotada da alma, sem nenhum rastro cognitivo ou lógico, eis que vejo surgir um pensamento,  firme, uma conclamação a realizar uma ação concreta, fazer algo em agradecimento. Estranho que só, até ilógico, diria. Simbolicamente, é como se eu devesse  devolver com alguma boa ação o bem recebido do destino (ou seja lá de quem quer que seja que determine os caminhos de todos os viventes espalhados pelo Universo). O velho mistério de nossa ínfima condição humana e permanente exposição ao que nos toma nos braços – para o bem ou para o mal enquanto vivemos.

A felicidade veio tão desabalada de dentro do peito que provocou uma sensação de que deveria tomar alguma providência para demonstrar minha gratidão. Uma urgência em imaginar – e não encontrar – alguma ação concreta, com cor, cheiro, tempo e forma para suprir o desejo  sincero de ser grata.

Minutos se passam, o relógio percorre horas e nada me ocorre. Nada que tenha sentido como resposta ao presente que a vida colocou em meu/ nosso caminho.

Por que tal necessidade? Qual a lógica desta necessidade? Em que se ampara esta minha procura? 

COM QUEM, AFINAL,  ESTOU EM DÍVIDA?

As horas passam e até agora nada. Não é que me angustie a inconclusão de minha reflexão sobre o que fazer. O tempo é livre e amplo para que ideias sejam tecidas e eleitas… A questão é bem mais profunda: agradecer é verbo transitivo. Alguém precisa receber esta ação contrita de ser grato… Quem? Como? De que forma?

A pensar, a sentir, a buscar…  parece ser uma reflexão de vida inteira.

Em 18/11/2020.

Carmen Lucia Pessanha

Professora aposentada, ativa.

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