[P]és
Foi pelos pés que ela o fisgou. Não, verdade seja dita: o primeiro encanto surgiu pelas fissuras que ela provocou em sua alma quando abriu as gavetas do seu coração e lhe contou histórias de amores remendados.
Mas ela abriu as gavetas com os pés. Então, foi pelos pés que chamou sua atenção.
Naquela noite eles estavam especialmente bonitos. “Será que ele vai notar?” – ela pensou. “Será que ela vai mostrar?” – ele duvidou. Combinaram de ver as estrelas e beber angústias em vagarosas doses. Talvez a lentidão do relógio fosse capaz de estender a bebedeira e levá-los até o encontro de suas almas transparentes, do mesmo jeito que o rio encontra o mar ou a boca encontra os pés. Foi pelos pés dela que ele encontrou o norte, o sentido e a perdição, enquanto ela desenhava na areia, descalça, labirintos que ele percorria de olhos fechados. Ambos se perderam e nunca estiveram tão felizes por não encontrarem uma saída.
Quando começaram a dançar em descompasso com as ondas, ele notou. Notou os contornos, o esmalte, as veias e as lembranças sobrepostas naqueles pés. “Vem, vou te mostrar minhas estrelas favoritas” – ela disse, já deitada na areia. Ele não teve tempo de retrucar, pois todos os seus sentidos se fixaram nos pés que apontavam constelações. Foi através dos pés dela que ele enxergou clarões e ouviu cantigas esquecidas no fundo da sua memória de menino que tinha medo de machucar os pés. O menino não fazia ideia, mas seu verdadeiro medo era o de nunca encontrar aqueles pés. Ela achou graça quando viu uma lágrima escorrer e limpou com o pé esquerdo aquela que era a forma dele agradecer por estar ali, aos seus pés. Ela mostrou não só os pés, mas todas as pegadas rabiscadas no seu peito, no seu ventre, no meio das suas pernas. Foi pelos pés que ele começou a desnudar aquela alma até explodir cometas dentro dela, deixando um rastro de suor e areia pela noite iluminada.
Quando as estrelas se apagaram ela passeou sobre o corpo dele com os pés descalços. Ele podia sentir o peso de cada passo e pensou em lamber aqueles pés novamente, mas abriu os olhos e a claridade iluminou o quarto vazio. O menino solitário estendeu sobre si o velho lençol de sonhos, pois ainda tinha medo de machucar os pés.
Patrícia Torres
Escritora e Professora
Professora de História, Mestre em História Social, formanda de Letras e Escritora. Autora de Com gosto de pólvora e vodka (2015) e Eu sou a santa do meu próprio altar (2021)
