Antonio C. B. Campos – Crônica

O mascarado

Era tarde de inverno quando o reencontrei. Caminhávamos sobre as pedras das ruas, à sombra de abricós que, de tão velhos, podiam guardar em suas copas a memória dos prédios centenários e do povo da cidade.

Ao sul, a capela jesuíta erguida em homenagem a São João Batista parecia nos vigiar, como fizera aos africanos escravizados pelo tráfico que por ali passaram. Mas, em contraste a estes, garantia-nos do alto daquele pequeno morro por ela ornado um lugar junto aos tantos mortos guardados em suas catacumbas quatrocentonas.

A oeste, o pôr do sol dourava mais uma vez o rio e espalhava fogo do horizonte à abóbada de um céu mutante. Preparava-se para se esconder entre as árvores, atrás do mangue, imitando as gaivotas brancas recém-chegadas do norte em revoada, como se descansar fosse preciso.

A leste, a bruma engolia o horizonte e tudo o que antes era calor e cor. A restinga, a flor e o fruto do mandacaru, a amendoeira, a areia, a espuma, o mar, a ilha, as nuvens e os Trinta-réis desbotavam seus amarelos, seus vermelhos e seus azuis e mergulhavam na friagem cinza da noite que se apresentava.

Estávamos em uma encruzilhada fêmea. Nela, três caminhos se ofereciam. Éramos dois homens parados no centro do reino das Pomba-giras decidindo nossos caminhos. Voltar, seguir ou mudar a direção era o que se nos impunha. Vencida a hesitação, primeiro ele e depois eu tomamos a direção leste, ao encontro do frio e do pálido.

Eu o observava pelas costas. Não me chamavam a atenção sua roupa, seu chapéu ou seus sapatos, se é que os usava, mas seu andar. Havia algo incomum no desenho sem pressa nem vagar dos seus passos. Seguiam como se não levassem um corpo, revelando uma leveza despida de graça. Era como se carregassem um fardo sem matéria e, por ser assim, rompiam as barreiras do espaço e do tempo.

Meu estranho e antigo companheiro, de modo diferente ao que agora relato, nasceu em um tempo e em um lugar comuns. Para alegria de seus pais era um menino. A masculinidade foi a primeira das muitas fantasias que vestiu. Depois vieram outras tantas e, com elas, as máscaras.

Ainda muito novo recebeu de presente e de bom grado uma coleção delas: máscara de inteligente, de sedutor, de bonito, de descontraído, de gentil, mas nenhuma delas enchia-o tanto de orgulho quanto uma máscara branca, de família, que lhe servia de base para todas as outras. Quando a vestia, sentia-se forte e se reconhecia merecedor de todas as suas conquistas e de todos os seus privilégios. Havia sido presente de seu amado pai que, por sua vez, recebeu de seu avô paterno e que ele, como mandava a tradição, deveria ofertá-la ao seu filho.

Com o passar do tempo, assumiu papel ativo na escolha de suas máscaras, ora recolhendo as que encontrava descartadas pelo caminho, ora trocando as antigas e fora de moda por outras mais modernas, adequadas e úteis.

Homem feito, suas fantasias lhe bastavam. Para o lar, máscara de bom pai de família e de bom amante. Para os negócios, máscara de competência e de honestidade. Para os amigos, máscara de ternura e de benquerença. Contava com uma máscara para cada situação e as utilizava com destreza. Em ocasiões especiais, quando um objetivo lhe apresentava inalcançável, ocorria-lhe de sobrepor diversas máscaras àquela branca, de família, e era certeiro no alcance do efeito desejado.

Especializou-se de tal forma em seus disfarces que conseguia utilizar máscaras que, combinadas, pareciam estancar o tempo. Fazia um ajuste aqui, outro ali e era como se o tempo parasse, ou pelo menos ficasse suspenso, sem deixar marcas, pacientemente esperando. 

Chegado o dia de transmitir ao filho a máscara herdada, algo inesperado ocorreu. De tanto usá-la, junto a outras ou não, o mascarado já não podia mais prescindir dela. Por mais que tentasse retirá-la, seu rosto absorvia sua cor e sua forma, tornando-se cada vez mais branco e mais desejante de poder. Máscara e rosto fundiram-se, transformando o homem e a coisa em uma mescla indistinta de realidade e fantasia. 

Fato é que o tempo aparentemente suspenso, parado, que esperava com paciência o vestir e o trocar de suas máscaras, nunca o traiu. Esteve sempre ao seu lado lhe roendo os calcanhares e lembrando-lhe de que era humano, mas suas máscaras lhe cobriam olhos, ouvido, nariz e boca, distorcendo seus sentidos e impedindo-o de sê-lo.

Agora, só lhe restava uma encruzilhada e uma escolha. À sua frente, a friagem vinda do mar; às suas costas, eu e o sol que já se punha. De repente, naquela pequena rua que ligava o rio ao mar, o tempo caía e se fazia presente. Caíam também as máscaras do rosto daquele homem, revelando o que restava ali de humanidade.

Apresso-me para ultrapassá-lo e me viro em direção a ele. Posso finalmente mirá-lo de frente, no espaço e no tempo presente e, apesar do sol que me ofusca os olhos, vejo sua face sem máscaras. Nela, estão as marcas de tantas farsas, e além das marcas, o vazio.

Para não mais ver, tapo os olhos com as mãos e, ao cegar-me, sinto revelar-se ao toque dos meus dedos a minha própria máscara: a máscara do filho que não herdou do pai a máscara branca.

Troco meus passos e me encaminho sereno e decididamente para o meu sul.

Antonio C. B. Campos

Professor e Psicanalista

Deixe um comentário