Adriana Bittencourt Guedes

Distância: Ali na praia, naquele dia quente, eu brincava com meus filhos. Com um corpo maior do que eu planejara ter em minha juventude, mastigava com culpa um risole esfarelado que minha tia, cozinheira tão esforçada – mais esforçada do que boa, a bem da verdade – havia preparado para o farnel do dia.  Envolvida…

Patrícia Torres

111: Ele é a porta De entrada Para o meu delírio            Tem o poder De lamber Minhas curvas Minhas letras           E fazer Do meu gozo Explosão de rimas tortas  Ninguém lê Minha bula Com olhos, dedos e língua Como ele faz  Ele se entrega Como se não quisesse Mas com a urgência Dos necessitados…

Renato Zanata Arnos

Senhores do Caos : Cedo, Bala perdida cantou. Outras vidas, Que o Estado abreviou. Senhores do Caos, Togas, corjas, parlamentos. Preço, Sabe quem foi que pagou? Velhos vícios, Que a malandragem aditivou. Senhores do Caos, Lobbys, máfias a contento. Vejo num menino, Uma vida a vapor.l Destino, que um Zé mutreta confiscou. Senhores do Caos,…

Vania Alencar

Crônica Carioca: Nasci e cresci num bairro bucólico carioca: o Rio Comprido. O nome está ligado ao rio que nasce lá na Floresta da Tijuca e vai desaguar na Baía de Guanabara.  Quando pequena, pulávamos no rio para pegar peixinhos… Hoje só uma parte dele pode ser vista. É apenas um sombrio córrego de esgoto,…

Luiz Claudio B. de Magalhães

Mais bonito: Tive um amigo, muito amigo, amigo mesmo, desses que a gente só tem aos oito anos de idade. Toninho, era assim que eu o chamava, talvez se chamasse Antônio, mas não tenho certeza, não lembro mais.  Lembro que era filho do velho sapateiro. Um homem magrelo, simpático o qual gostava de ver trabalhar,…

Amarilis Martins Gualda

Em palavras, o registro de um trauma: Seguro o futuro  _ Inseguro!  Vivo o presente _  Ausente! O hoje tormentoso conclama: _  Avante!  Siga em frente!  Medicada!  Remediada!  Anestesiada!  Claudicante, _ Avante!  Vociferante,   _ Avante!  Itinerante,  _ Avante! Ruminando a minha dor, Vomitando o meu espanto, Esculpindo a minha mente Dormente. Dor na alma. Mente …

Vivian Pelodan

Eu nunca soube definir: Eu nunca soube definir a profundidade do poço. Alguém? Uma rua e o pó subindo no rastro do carro. A cara mascarada perdendo-se no espaço. A imagem do céu visto, passado, fundindo-se na nuvem suja que poderia despencar.Quando perdemos esse tempo? Quem? Nunca li nada sobre o tempo perdido — e o passamos sem jeito de…

João Mauro Amaral dos Santos

Dentro do lado de fora do mundo: Eu sempre admirei os cronistas. Eles tiveram um papel decisivo para que eu tomasse gosto pela leitura. Ah, aquela capacidade de escrever algo interessante sobre o real, o cotidiano. E muitas vezes cotidianamente produzindo. E com a espada afiadíssima dos chefes de redação e dos editores sobre suas…

Paula Saraquine

Prece: Adoro olhar o mar. Naquela manhã resolvi levar poesia para fazer oferendas. Colhi em minha estante um poema de uma amiga que tem na alma a poesia que arde e que transborda até nos alcançar. Levei também os Manuscritos de Felipa. Escolhi alguns versos para dizer. Para você, leitor, posso confessar: escondi do mar que…

Edna Bueno

Unicórnio: Cavalo se reconhece pelo passo, pelo trotar. Tudo se sabe: se firme, se de mansidão ou arisco. O cavaleiro, pelo jeito de segurar a rédea. Sei quando é ele quem vem lá, pelo trote ritmado. Devagar, um casco, o outro, marcando o chão de terra. Sei desde cedo, que nem fosse aviso: volto rasteiro…