
Distância:
Ali na praia, naquele dia quente, eu brincava com meus filhos. Com um corpo maior do que eu planejara ter em minha juventude, mastigava com culpa um risole esfarelado que minha tia, cozinheira tão esforçada – mais esforçada do que boa, a bem da verdade – havia preparado para o farnel do dia.
Envolvida em fazer cada filho calar e comer, com o olhar perdido no mendigo que catava mariscos na pedra, sensível a todos os ruídos que me cercavam numa sinfonia indefinida e desafinada, eu fui me abstraindo pouco a pouco daquele inferno e olhei, desafiando meu destino tão aceito há tempos de só olhar para baixo, olhei para o alto. E foi então que eu o vi.
Claro, alto, atento, um homem me olhava de sua janela. Por que me olhava aquele homem, me perguntei assustada, temendo que percebessem meu transparente desconcerto. Era triste, distante, humanamente angustiado com alguma verdade sobre a qual me fazia instrumento. Ele retirava de mim cada detalhe, os movimentos, o risole esfarelado de minha tia cozinheira, os filhos, minha pobreza. Se alimentava da cena quente, suja, da qual eu fazia parte.
Então era isso. Aquele homem me olhava de sua janela. Lá do alto ele olhava e desejava a minha temperatura, os meus excessos, as minhas experiências, meus insucessos, meu corpo sujo de areia, prova real de que eu vivia. Mas ele me contemplava de sua janela, com medo. De sua janela, ele se mantinha discreto, à escuta dos sons imprevisíveis e surpreendentes. Não se sujava, não se envolvia, não se misturava, não vivia. Mas posso acreditar que sentia. Seu rosto transparecia o desejo de estar ali comigo, sujo, provando do risole de minha tia cozinheira.
Alguns minutos se passaram apenas. Fui expulsa de minha contemplação tão suave daquele homem triste, cansado: sozinho. O que se passava do lado de dentro de sua janela que o impedia de sair e se sujar de areia? Meus filhos gritavam, me puxando com as mãos em direção à água insalubre, cercados por outras crianças sujas de areia, numa confusão de gritos e risadas fora do meu contexto perplexo de amor.
Levamos um caixote de uma onda inesperadamente grande para os padrões daquela praia e parte de meus seios à mostra fez os moleques gargalharem enquanto bebiam meio litro da água insalubre. Ri também. E muito. A pobreza não tem caprichos e o riso solto vira vingança da vida.
Olhei mais uma vez para o alto. A janela fechada, a cortina passada. O mundo novamente restituído em seus altos e baixos.
Baixe o texto em PDF clicando no link abaixo
