
Carta ao presidente:
“Hoje eu acordei com uma vontade danada de mandar flores ao delegado”.
Não, não, não…
Essa é uma canção do Baleiro. O presidente também gosta de bala, mas não é da que o Baleiro gosta. Além do mais, quero escrever uma carta e não um “Telegrama”.
Vou começar de novo.
Hoje eu acordei com uma vontade danada de escrever uma carta ao meu Presidente da República. Ou será ao presidente da minha república?
Agora sim, sou eu que escrevo…
Tomei café, escovei os dentes, observei o tempo e, ainda vestindo meu velho pijama, sentei-me à não menos velha escrivaninha, saquei de uma de suas gavetas uma folha de papel sulfite 90g e uma caneta nanquim 0,3mm, resquícios dos meus tempos frente a pranchetas e projetos. De imediato, intuí que não seria uma tarefa possível de se realizar sem ensaio. Então, troquei a caneta por um lápis 2B e uma borracha macia. Coloquei uma almofada no encosto da cadeira, os óculos de enxergar, como minha mãe chamava seus óculos de leitura, e dei início à carta:
Excelentíssimo Senhor Presidente da República Federativa …
Nada mau para macular o branco do papel, mas fui tomado por uma insegurança linguística. Acho que não estive muito atento às aulas ginasiais sobre pronomes de tratamento do Professor João. Será que para me referir ao Presidente da República devo utilizar o “excelentíssimo”?
Na falta de uma gramática à mão, decidi consultar o bom e velho pai-dos-burros e lá encontrei a resposta: Excelentíssimo é o “Superlativo Absoluto Sintético de excelente”. Fiquei convencido de que a língua portuguesa não era meu forte, mas uma certeza me restava: “excelentíssimo” deveria ser utilizado frente a alguém que fosse mais do que excelente.
Não me abati e, folheando o tijolão, voltei algumas páginas e lá estava o significado de excelente: “Excessivamente bom; com ótima qualidade. Perfeito, primoroso, exímio, inigualável. De sabor e qualidade apreciáveis; agradável. Recreativo, interessante, envolvente, instrutivo.”
Fechei o Aurélio e fiquei confuso.
O presidente da minha república não poderia ser qualificado por nenhum daqueles adjetivos. Ou melhor, por apenas um deles: ele é uma pessoa inigualável. Mas longe de ser em perfeição.
A essa altura, a tarefa que eu já julgava difícil tomou contornos de impossível. Mas, como arquiteto, acostumado a trabalhar com as impossibilidades desejadas pelos clientes, não me detive. Não o chamaria de “excelentíssimo” para não brigar com a verdade. Mas quem sabe o “ilustríssimo” não lhe cairia bem?
Ilustríssimo Senhor Presidente da República Federativa…
Achei simpático!
Para evitar equívocos voltei ao recém dispensado dicionário. Ele me aguardava com sua capa dura e preta ornada com letras góticas na estante vizinha, bem ao alcance de minhas mãos. Passei os dedos por sua lateral dourada tentando adivinhar o local do “I” e — bimba — abri no lugar certinho. Deve ser o hábito. Corri o indicador pelas palavras de cima a baixo e lá estava ela: “ilustríssimo”. Com ela, a decepção: novamente aquela história de superlativo absoluto tralalá tralalá.
Estava escrito que ilustríssimo é o “Superlativo Absoluto Sintético de ilustre”. Triste e enfadonho destino, o meu. Lá fui eu procurar o significado de ilustre, já desconfiado de que a história do “excelente” se repetiria. Então, cheguei a ele: “Que se conseguiu distinguir por sua magnificência, por características merecedoras de destaque; célebre ou notável. Tratamento dado a pessoas de certa dignidade.”
Atordoado, fechei outra vez o dicionário, mas não o dispensei. O presidente para o qual me dirigiria não poderia ser identificado por nenhum daqueles atributos. A não ser que consideremos inclemência, grosseria e misoginia características merecedoras de destaque.
Estava a ponto de desistir da carta por não saber como tratá-lo quando me lembrei que o presidente havia sido militar. E maisssss, que adorava ainda ser tratado como tal. Consultei sua biografia escrita atrás de um “santinho” da campanha eleitoral e descobri que na ativa ele conquistou o honroso título de Mestre em Saltos pela Brigada Paraquedista do seu estado e hoje se orgulha de ser um Capitão Reformado das Forças Armadas.
Era uma luz no final de um túnel me servindo como bússola para não desistir da missiva. Mas novamente a dúvida: que pronome de tratamento deve ser usado para se dirigir a um Capitão Reformado etc etc etc? Não titubeei. Mãos ao telefone e do outro lado meu primo Mauro, um sabichão dos assuntos militares, esclareceu que a forma correta é tratá-lo como Senhor Capitão.
Confesso que achei “senhor capitão” pouco pomposo para me dirigir ao presidente da minha república, mas uma vez impedido por motivos semânticos de usar “excelentíssimo” e “ilustríssimo” antes do “senhor”, foi o que me sobrou para o jantar. Ademais, ele adora ser reconhecido como militar. Vai dar certo. Insisti na carta.
Senhor Capitão Reformado das Forças Armadas Presidente da República Federativa…
Redobrando o cuidado para não cometer uma impropriedade nesse improvável arranjo linguístico, levantei o tijolão do colo e pus-me a procurar na letra “s” o significado da palavra Senhor. E, pasmem!!!! O Aurelião me vem com esse: “Proprietário, dono absoluto, possuidor de algum Estado, território ou objeto.”
Definitivamente nããão!
Por uma total impossibilidade de utilizar adequadamente um pronome para me dirigir ao presidente, engavetei o projeto de carta. Descontente com o dicionário, joguei-o de volta à estante e impus a ele o seu devido lugar.
O camarada caiu aberto na letra G — como se cinicamente me sugerisse algum tratamento ao presidente.
Balancei, admito, mas mantive os papéis na gaveta, junto aos óculos de enxergar.
Julho 2021

Republicou isso em REBLOGADOR.
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Que legal. obrigado.
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