Vania Alencar

Crônica Carioca:

Nasci e cresci num bairro bucólico carioca: o Rio Comprido. O nome está ligado ao rio que nasce lá na Floresta da Tijuca e vai desaguar na Baía de Guanabara. 

Quando pequena, pulávamos no rio para pegar peixinhos… Hoje só uma parte dele pode ser vista. É apenas um sombrio córrego de esgoto, graças à construção do Elevado Paulo de Frontin (Túnel Rebouças), que modificou a vida e o modo de viver do bairro.

Havia muitas chácaras por ali — que o desmatamento e o crescimento desordenado do bairro destruíram.

O Rio Comprido perdeu seu charme, seu glamour e ganhou toneladas de concreto, de buzinas, de poluição e de árvores históricas derrubadas.

O bairro tinha clubes famosos e valorizados, como o Esporte Clube Minerva, onde meu pai apitava jogos de futebol de salão.

Ali, “os rapazes da Matoso” fundaram um dos maiores movimentos musicais do Brasil, a Jovem Guarda. Liderada por Erasmo Carlos, Roberto Carlos, Wanderléia, Tim Maia e o cara do Salve Simpatia, Babulina, o Jorge Ben, que, na época, namorava com a minha Tia Adelayde . 

Minha mãe protagonizou cenas hilárias dando vassouradas nele, um jovem pobre acompanhado por sua mãe lavadeira, filha de escravos, que pretendia investir no seu talento. Ele vivia com seu violão embaixo do braço, e a maioria dizia que aqueles caras eram vagabundos. Tudo por conta de um início difícil para qualquer músico.


Até hoje os músicos ainda são tachados de vagabundos… Mas que nada!

Saiu dali para ser reconhecido como um dos maiores artistas do mundo com seu suingue e balanço. Salve, Zé Pretinho! Não é que até o Rod Stewart plagiou seu Taj Mahal?
 
O amor?  O amor de Jorge Ben e minha tia não durou. Mas um dia, num Tricampeonato Carioca do Flamengo, nos encontramos no Maracanã e fomos no ônibus com os jogadores para a festa na Boite Regine’s segurando a taça no colo. Nossa! Que honra aquilo! Que dia!

Ele perguntou como estava minha tia, e eu disse que passava bem. Ele confidenciou que ela havia sido um grande amor dele e que gostaria de revê-la.

Encontraram-se num jogo do Flamengo. Eu a levei, e deram um longo abraço, trocaram algumas palavras e cada um seguiu o seu caminho… Fiquei a imaginar que aquele cara poderia ser meu tio… Mas que nada… só um músico que não sai da minha playlist e do meu carinho. Viemos do mesmo lugar!

Minha mãe… Ela só queria o mais seguro para a irmã que criava. Criava duas irmãs e cinco filhos. Não era fácil. 

Minha tia era funcionária do Laboratório Roche. Na época, trabalhava com produtos Pantene. Era linda! Corpo violão, cabelos enormes bem tratados. Elegante, sensual. Os rapazes ficavam doidos com sua beleza. 

Ela adorava o Jorge! Não era para ficarem juntos. Ela também não lutou por ele. Resultado: fim do amor!

Aquele bairro, o cheiro da infância… as brincadeiras nos gramados da Igreja de São Pedro, o Padre resmungando da gritaria. As árvores gigantes. Lindas figueiras com raízes imensas descendo rio adentro, como que abraçando-o.
 
Todos se conheciam. O dono da padaria, do açougue e da mercearia onde o arroz, o feijão e a farinha eram à granel.

O pão era bisnaga, baguete grande (tinha briga para comer os bicos), mortadela italiana, manteiga na lata, leite de garrafa, pão doce, cavaca, rosquinhas de fubá, queijo de cuia, óleo de coco, gordura carioca, sacola de papel, laços de fita nos cabelos, vestidos de laise feitos à mão pela minha mãe, anel de ouro com uma pérola, igual aos brincos, sapatos de verniz, uniformes compartilhados, merendas embrulhadas em papel de pão. Frasqueira com copo e garrafinha para o suco ou café com leite. Livros do Domingos Paschoal Cegala, gramática do Rocha Lima ou do Evanildo Bechara. Meu pai fazendo a gente ler para ele capítulos de Lima Barreto, Machado de Assis… e a Capitu, traiu? Ele desconversava…

Contos de João Lyra ou do amigo Heitor Cony. A carne assada da minha mãe… o macarrão de domingo.

Agora fica quieto!  Hora do Jazz!  Billy Holiday, Sinatra, Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald, orquestra do Tommy Dorsey e Glenn Miller, os divinos de meu pai. Era como uma religião, máximo respeito! Já minha mãe cantava Dolores Duran, Elizeth Cardoso, Agostinho dos Santos… e o samba… hum… é um grande capítulo…

Meus primos e tios moravam todos por lá.  Fomos 
criados cheios de primos ao redor.

Médico, professor, dona de casa, trabalhador, escritor, jornalista, jogador de futebol, piloto, vagabundo? Desconheço! Nenhum! Gente boa de braço.

Mudando de lugar.
Transitivo direto… Dispor em outra ordem… Foi bem assim. Outra ordem, deslocamento!

Passamos para um bairro onde havia uma linha férrea. À noite, a cama estremecia com os trens de carga passando. Eram os ramais para Minas e São Paulo, e muitos minérios passavam por ali. Um barulho nunca visto.

Mudamos para a adversidade. Um conjunto residencial com 200 famílias. Nos assustamos num primeiro momento, porém ali era bem bonito. Arborizado, tinha uma pracinha bem legal. Tinha um clube, uma escola pública dentro do conjunto ao lado do clube. Tinha um posto de saúde e um posto policial ao lado. Era perfeito, seguro.

Bairro Cavalcante: pequeno, cheio de casinhas de subúrbio, todos se conheciam e se respeitavam.
Havia uma coisa interessante: o bairro era dividido pela linha do trem. Havia um glamour maior no conjunto onde moravam muitas moças lindas à espera dos rapazes do outro lado — o lado que tinha a Escola de Samba Em Cima da Hora, o lado do Colégio Cavalcante, de personalidades como o político Amarante Carlos de Jesus, queridíssimo no bairro, do sr. João Severino, presidente da Em Cima da Hora, do Sr. Zacharias, pai de Reinaldo (Príncipe do Pagode) e de Renato Zacharias. Dos bambas Jair Torrada, Dodô Marujo e Zeca do Varejo, do Baianinho eternizado pela Clara Nunes. Hélio Fabrício, Ney Vianna, Sergio Cabral, o pai, a mãe e as irmãs Cely, Aliete, as filhas nossas, eternas amigas queridas, o filho Fred, Ventania, filho do mais famoso barbeiro, a melhor padaria… Formigão, o lendário Pinto, com seu batmóvel. O Cine Marabá, onde assisti aos filmes do Roberto Carlos, dos Beatles, do Elvis e a Noviça rebelde!

Do meu lado, o Clube Associação Atlética Bancários de Cavalcante era um fervo! Bailes com a orquestra Tabajara (Severino Araújo), bandas de Rock, as melhores. Lincon Olivetti, Johnny Mazza, Os Bolhas, The Fevers, e o Baile da Pesada do Big Boy… Ensaios de escolas de samba e blocos, jogos de futebol de salão que lotavam a quadra com o time do Juventude do Zico e família. Era um espetáculo. 

As festas de 15 anos (na real, nunca quis)… achava um saco aqueles vestidinhos com goma rosa e aqueles cabelos com coques de laquê… nada a ver comigo. Preferi acampar, com violão e amigos em Arraial do Cabo! Até tentaram uma festa para mim. Meu amigo Ronaldo aniversariava no mesmo dia e fez um festão para a gente. Só que ele mesmo bateu com a Kombi que levava o bolo, eu, a namorada e mais duas pessoas. Acabamos no Hospital. Nada grave, mas o carro foi perda total! Eu avisei!

E tinha a turma que eu mais gostava de ouvir: os universitários apaixonados pela LIBELU (Liberdade e Luta) Trotskista. Mas nem todos eram radicais. A maioria era poeta e músico. Doidos jovens tentando mudar aquele regime que se instalava, a ditadura, e o lema era: “abaixo a ditadura!”. Foram dedurados. Eu vi o Claudio Marzo ser preso de toalha. Ele estava no banho, cheio de sabão, em um aparelho, uma casa na rua atrás do conjunto. O caveirão do DOPS passou e levou alguns dos rapazes que desapareceram… 

Trauma na menina… 

Não era o glamour dos filmes dos Beatles  e do Elvis. Nossos jovens estavam morrendo e desaparecendo.

Veio a morte do Edson Luís, foi uma loucura! O Edson foi um secundarista que estava no restaurante Calabouço, no centro da cidade do RJ.
Os militares queriam demolir a sede da UNE.  Os estudantes queriam garantir preços justos na comida do restaurante universitário. Morreu porque estava lá defendo a educação pública para jovens pobres! O Rio de Janeiro parou. Milhares de pessoas indignadas. Mataram o filho de uma lavadeira! 

Daí veio a Passeata dos Cem Mil e é um outro longo capítulo…



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