Edna Bueno

Por uma janela para o mar

De ladrilhos claros a parede do restaurante, alternando branco e azul. Sentaram-se lado a lado, de frente para a janela de vidro com vista para a rua – janela de dimensões largas, uma vitrine. E o garçom ali, sem arredar pé, o que vão pedir? Para comer? Para beber? Simpático, mas sem arredar pé. Para isso ela tinha a saída: pediam a bebida, dizia que iriam escolher com calma, que estavam escolhendo. O garçom anotou o pedido, foi-se. Ladrilhos, coisa antiga, sorriram.

Há tempos não iam àquele restaurante. Perto de casa. Passaram pela praça, lugar de ver céu, pouco céu se via do apartamento. Cidade grande. Pelo caminho, comentários, risos, compassos e descompassos. Distraídos. Sem sentir. Saíram para almoçar, variar o tempero. Dia comum de semana. Pedir o que para comer? Filé à Oswaldo Aranha, ele gosta. Ela só não quer gorduras, calorias em excesso, no mais fica feliz por fazer a vontade dele. Pede junto uma salada.

Sessão da tarde na TV?! Lembra quando os restaurantes não tinham televisão? Os bares? Ele lembrava. Ao menos podiam colocar um programa de música, tipo aquele concerto com o Duke Ellington que assistiram no dia anterior – nisso nem precisavam de palavras para concordar. Espelhos e TVs distraíam a atenção dela. Quando se conheceram, frequentavam um botequim repleto de espelhos e ele penava para se colocarem a salvo. Tarefa beirando o impossível, mas conseguia. Com o advento das TVs, tentavam dar as costas para os aparelhos. Ali, naquele lugar, tarefa impossível: ataque por frente, costas, todos os lados, LED, a tecnologia invadindo. O problema era ser dispersa, um tanto aluada. Qualquer coisinha, um pio de passarinho, imagine esses ímãs, me sugam – ela se defendia.

Diz que odeia televisão. Que passaram anos vendendo essa história de telas, TV, computador, celular, tudo é tela, no consultório médico, nos relógios nas calçadas, dentro do metrô, nos ônibus. A sociedade de consumo a deixa louca. Ele morre de rir, foi você quem me pediu aquela espaçosa, LED, no meio da sala de casa, insistiu: LED. Pode escolher suas telas, as que quiser, ou ficar sem, não precisa obedecer as leis do senso comum. Por ela, a partir dali, morariam no mato, melhor: onde desse para ver o mar. Uma janela para o mar, debruçada sobre as ondas. Ele ri porque, como ela, prefere lugares sem TV, prefere TV em casa à hora que bem entender, e ela sabe disso.

Chega o filé. O garçom serve, ajeitam a travessa na mesa. Ele ainda não acabou o chope, ela pede outra limonada suíça. Esteve doente, não quer arriscar. Quando o garçom se afasta, pega o cardápio e coloca o dedo em cima: limonada suíssa, com dois esses. Ele diz que ela podia ter pedido um conhaque e, dessa vez, os dois morrem de rir. Juntos. Lembra? Bebi todo o conhaque do bar, nunca mais. Porque tinha estado doente e não queria beber gelado, que ideia. Largar a sexta-feira pós-trabalho, papo e amigos, nem pensar. Riem muito. Não existia celular naquela época, ou existia?

Entre uma garfada e outra, fazem contas. O primeiro foi quando mudaram para o bairro, para o apartamento sem vista para o céu, celular enorme, um tijolo, não tinha tela. Celular dele. Teclas apenas; isso de touchscreen, inimaginável… Ou tinha sido antes, consideraram, um ano antes? 1994. Por aí. E os bares, já com TV? Copa do Mundo, provável que sim. Chamam o garçom e perguntam quando é que os bares e restaurantes passaram a ter TV. E o garçom confirma, foi por aí mesmo, pela Copa de 94, e os celulares, por essa época, eram enormes, poucos podiam ter, e tão pesados. O garçom é uma simpatia, conta a história de seu primeiro celular. Os dois contam as histórias deles.

O almoço segue, o garçom precisa atender outras mesas. Não são tantas, metade das mesas ocupadas, mas não há tempo e a conversa não pode continuar até o wi-fi e outros progressos. Lá fora começa uma chuva fina, as gotas através da janela-vitrine caem lentas. Pessoas passam, carros. A chuva traga o olhar dela. Ele se dedica ao filé. Pede outro chope. Voltariam andando, tinham trazido guarda-chuva. A vida inabalável. Pelo mesmo caminho, pela praça.

Chuva fininha, dia cinzento, preguiça, ela hipnotizada. Gostou do filé? Ele tem algumas reclamações, tem razão, nada é perfeito. Bom o chope? Ótimo. As gotas, a chuva, e eis que a luz se apaga. Cai a luz, algum problema nas redondezas.

O restaurante escurece, não totalmente, as  pessoas baixam a voz. Uma nova ordem se instala, silenciosa, não há perigo de trevas nessa hora do dia. E ela aponta para a tela em frente, no alto, inanimada, o dedo encostado na borda da mesa, meio escondido, um sorriso travesso. Pensa em uma janela para o mar, grande, bem grande. Imensidão. Chama o garçom, pede um conhaque – dose tímida, olha lá, por favor. E sente a mão dele na perna, o olhar fundo dele, aquele olhar. O ar quase não é suficiente. São olho no olho e um sem fim de histórias. São, naquele momento, todo o assombro da vida.

Edna Bueno

Escritora

 

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