O Artista Plástico Euzébio Ribeiro, residente desde criança em Barra de São João, nos honrou com essa entrevista.
O pdf disponível ao final da matéria contém links interativos que levam aos contatos do artista, às notícias aqui mencionadas, ao manifesto “O Regresso do Egresso” e ao acervo digital de Chico Tabibuia. Baixe-o, vale à pena.
ReHum: Você abandonou a vida de comerciante, tradição em sua família, para se dedicar às artes Como se deu essa mudança tão radical em sua vida?
E. R.: Eu entrei no mundo da arte por causa do desgaste emocional causado pelo que eu fazia. Fiquei mais de 30 anos me dedicando a restaurantes e bares. Já fiz um pouquinho de tudo em relação ao comércio e eu queria uma coisa mais tranquila que eu pudesse realizar sozinho. Daí resolvi pintar uma tela como teste — não deu certo, a tela ficou jogada lá — mas eu insisti.
ReHum: Mas você poderia ter escolhido outras áreas para se dedicar. Poderia ter pensado em música, dança e outras tantas coisas. Por que a pintura?
E. R.: Eu não gosto de movimentos repetitivos. Para dançar e fazer música é preciso repetir e eu não percebo a pintura desse jeito: são milhões de possibilidades, de imagens… o novo é novo todo dia, você que cria…cabe no seu gosto. Você inventa seu arranjo e joga a emoção na tela… tem uma magia… uma sensação maravilhosa.
ReHum: Você teve alguns quadros censurados e algumas censuras vieram a público. Fale um pouquinho sobre elas.
E. R.: Eu estou até me considerando “o censurado”. A primeira censura foi até bem comentada. Houve uma exposição na Assembleia Legislativa de São Paulo , a “Olhar 2018”, e eu participei com dois quadros: um deles foi o “A luxúria”. Ao ver o quadro, a jornalista Mônica Bergamo começou a tomar notas e então os organizadores viraram o quadro de cabeça para baixo.
ReHum: Por que fizeram essa interferência? O quadro apresentava algum conteúdo político?
E. R.: Sim!! “A luxúria” é um quadro que compõe a série “Os sete pecados capitais” que eu estava pintando. Nele estão representados personagens com corpo de gente e cabeça de bicho em plena suruba, entre eles um com cabeça de tucano —símbolo do PSDB—.
ReHum: E certamente o “tucano” não estava na situação mais confortável nessa suruba, certo?.
E. R.: (risos) Estava de quatro, na verdade. Então viraram o quadro de cabeça para baixo para ele passar despercebido. Depois ele foi retirado mesmo. Foi censurado.
A luxúria de Euzébio Ribeiro
ReHum: Então virou notícia!
E. R.: Sim!! A notícia foi publicada na Folha de São Paulo, no G1 e no Metro.
ReHum: Encontramos publicações também na Forum e na TudoUP, além do carinhoso e político manifesto “O Regresso do Egresso” no KZPost.
ReHum: E a segunda censura? foi em São Paulo também?
E. R.: Não. A segunda foi na minha cidade, em Barra de São João. Aqui tem o Museu Casa de Casimiro de Abreu —maravilhoso—, onde muitas exposições acontecem contando com artistas locais. A Prefeitura, que administra o museu, criou o Prêmio Poeta Casimiro de Abreu, eu me inscrevi e fui contemplado com o valor de cinco mil reais, que me possibilitaram comprar o material para desenvolver meu projeto: uma escultura em homenagem a Chico Tabibuia.
ReHum: A obra do Chico Tabibuia é caracterizada por um grau de eroticidade, não é?
E. R.: Sim! Sim! Ele mesclava uma arte erótica com a representação de Orixás. Fazia uma conexão entre esses dois campos.
ReHum: Então esse trabalho foi inspirado na obra do Tabibuia.
E. R.: Sim! Foi inspirado na obra dele. Eu queria fazer uma homenagem a esse grande artista daqui de Barra de São João. A peça ficou linda! maravilhosa! ficou uma escultura bacana. Foi feita com o aproveitamento da madeira de uma árvore derrubada na Beira Rio. Eu nunca tinha feito uma escultura em minha vida. Seu nome é “Madeira de Chico.”
ReHum: Você tem uma imagem da “Madeira de Chico”?
E. R.: Tenho! Imagem e a própria peça. Ela está em minha casa. A exposição foi nesse ano, agora em 2021.
ReHum: Mas houve uma censura. Ela foi censurada por qual motivo? Sofreu qual tipo de censura?
E. R.: A Secretária de Cultura do Município disse que a cidade é muito conservadora e que por isso não tinha condições de expor a minha escultura no Museu Casa de Casimiro de Abreu. Fato que me causou espanto, uma vez que o museu conta com obras do próprio Tabibuia.
ReHum: O que há de tão chocante em sua escultura que mereceu esse tratamento por parte da Secretaria Municipal de Cultura?
E. R.: A escultura, como boa parte das esculturas do Chico Tabibuia, conta com a exposição de órgãos sexuais. Nada excepcional, tanto que o restaurante “O Caiçara” promoveu a exposição de minha escultura e foi um sucesso. Lá estavam famílias, senhores, senhoras e crianças e ninguém ficou escandalizado.

ReHum: Sinal de que os governantes e que são conservadores e para se justificarem atribuem à cidade essa característica, não é?
E. R.: É!! (risos) Agora estou criando outro projeto, mas nada erótico (risos).
ReHum: Vai dar um tempo!! (risos). Quer parar de ser censurado? Fale desse novo projeto.
E. R.: Eu estou pintando Barra de São João. Minhas pinturas se caracterizavam até então por apresentarem rostos e expressões humanas. Agora quero me dedicar às paisagens.
Desde que comecei a produzir arte eu consegui manter as minhas obras sobre o meu domínio. Nunca vendi nenhuma peça, nenhum quadro. Me dedico hoje em dia a montar uma casa de cultura aqui em Barra de São João, meu espaço cultural. Quero um lugar para manter minha obra em exposição permanente.
ReHum: Um lugar onde você possa expor suas obras sem censura (risos)
E. R.: Sim! Um lugar bem bonito, onde as pessoas possam entrar e se sentirem bem.
ReHum: Sucesso e parabéns.
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Muito bom ! É sempre muito importante apoiar artistas locais, muitas vezes as autoridades por não terem conhecimento sobre criação artística e liberdade de criação censuram, e acabam oprimindo o cidadão que tem coragem de colocar a cara na janela (a banda na janela).
Parabéns Euzebio Ribeiro!
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