Universalização do Gozo e Laços Precários
“Por falta de repouso nossa civilização caminha para uma nova barbárie. Em nenhuma outra época os ativos, isto é, os inquietos, valeram tanto. Assim, pertence às correções necessárias a serem tomadas quanto ao caráter da humanidade fortalecer em grande medida o elemento contemplativo”. NIETZSCHE, F. Humano, demasiado humano.
A citação de Nietzsche (1878) encontra-se no livro Sociedade do Cansaço (2010), onde o filósofo Han Byung-Chul comenta a tragédia de se viver na atualidade e suas consequências.
Meu desejo de escrever sobre o tema surgiu a partir do incômodo com certo uso que estamos fazendo dos objetos oferecidos pela sociedade capitalista, somado a uma boa dose de indignação com o que entendo como retrocesso na política atual do nosso país e a interrogação sobre os limites e possibilidades da psicanálise nesse campo.
Quase que por um desses acasos da vida, que não são tão acasos assim, já que andava debruçada sobre o tema, me deparei com esse pequeno livro do filósofo coreano, que se fixou na Alemanha e hoje é professor de Filosofia e Estudos Culturais na Universidade de Berlim. Percebi ali em Sociedade do Cansaço, que havia uma possível conversa do filósofo Han com a psicanálise e seguindo sua orientação, me dediquei a ler também Nietzsche em Humano, demasiado Humano. O que apresento aqui é um resultado parcial dessas leituras e algumas reflexões à luz de Freud e Lacan.
Cada época tem suas enfermidades fundamentais, sendo a sociedade pós-moderna dominada por doenças como TDAH e depressão, as quais Han chama “neuronais”, em contraposição às doenças infecciosas, predominantes no passado. Ainda que seja necessário lembrar que se trata de uma análise filosófica, onde chama “neuronal” um adoecimento que é psíquico, certamente Freud e Lacan concordariam com ele em diversos aspectos.
Os adoecimentos do século XXI são estados patológicos devidos a um “excesso de positividade” criada pela “sociedade do desempenho” (da tecnologia, dos selfs, da estética, das academias, laboratórios de genética…) onde o homem se transforma em sujeito de desempenho e produção, empresário de si mesmo, levando ao “esgotamento, a exaustão e o sufocamento frente à demasia”. Enquanto a “sociedade disciplinar” da época de Freud, “fruto de uma negatividade”, movida pelo dever e pela obediência, gerava “loucos e delinquentes”, a atual produz hiperativos, depressivos e “fracassados”.
Apoiado em Nietzsche e também em Hegel, Han mostra que o esforço exagerado em maximizar o desempenho, afasta a negatividade, pois esta atrasaria o processo de aceleração. Entendendo-se aí “negatividade” como força que mantém viva a existência, uma potência de não fazer distinguindo-se da mera impotência ou incapacidade de fazer alguma coisa.
“A negatividade do não-para é também um traço essencial da contemplação”. Um processo ativo de busca do vazio, que nos possibilita libertar daquilo que se impõe. É preciso o tempo de parar de fazer. Se só houvesse a potência positiva de fazer algo, estaríamos expostos de forma totalmente passiva aos objetos e cairíamos numa “hiperatividade fatal”. A hiperatividade é, portanto, uma forma extremamente passiva de fazer.
O novo mandato da sociedade, com o objetivo de maximizar a produção, transforma o sujeito em “animal laborans”, hiperativo e preso a uma verdadeira auto-exploração, “cada um carregando consigo seu campo de trabalho”. Somos todos, a um só tempo, “prisioneiro e vigia, vítima e agressor, explorando-nos a nós mesmos”.
O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?
LACAN em 1953 já dizia que “deve renunciar à prática da psicanálise todo analista que não conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época”, lembrando Freud, que pensava a neurose como uma resposta do sujeito às exigências da cultura. A psicanálise é sim prática do um a um, mas justo por isso, implica pluralidade, livre expressão. Portanto, não pode manter-se à margem das mudanças impostas pelas novas formas de gozo da civilização. A experiência analítica é um laço social, um tratamento que propõe elucidar a relação do gozo, trabalhando a relação que o sujeito tem com a linguagem, com os significantes mestres que determinam suas modalidades de laço social e neste sentido tem seu alcance político, revelando que o sintoma é um gozo que se presentifica, que há um real impossível de universalizar.
Podemos seguir com Lacan em 1974, quando diagnosticou o mal-estar da modernidade como o produto do discurso capitalista. O empuxo à universalização dos modos de gozo na sociedade capitalista, com os produtos mais utilitários postos no mercado, produz sujeitos insaciáveis em suas demandas de consumo e colocando a “mais–valia” no lugar da causa do desejo, transforma cada um num explorador em potencial de seu semelhante, sujeitos parceiros prontos-a-gozar, acabando por negar a subjetividade. O discurso dominante visa sobrepor o mercado à sociedade, estimulando a competitividade, funcionando também como facilitador da agressividade que nos é inerente.
Em 2010, Han continua falando dos efeitos do “hipercapitalismo”, que dissolve a existência humana numa rede de relações comerciais, arrancando sua dignidade, mostrando que a exploração hoje é muito mais cruel, “pois caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade”. Puro engodo, pois esta sociedade não tem nada de livre, já que o próprio senhor se transformou em escravo de si mesmo.
A depressão, doença do século, seria a expressão do fracasso do homem pós-moderno em ser ele mesmo e também reflexo da “carência de vínculos” inerente à sociedade, surgindo “no momento em que o sujeito do desempenho não pode mais poder”. Segundo ele “a lamúria do depressivo de que nada é possível só se torna possível numa sociedade que crê que nada é impossível”.
“Uma satisfação irrestrita de todas as necessidades se apresentaria como o método mais tentador de conduzir nossas vidas; isso, porém, significa colocar o gozo antes da cautela, acarretando logo o seu próprio castigo.” Por incrível que pareça, esta é uma citação de Freud em Mal-estar na Civilização, que cabe muito bem nos dias de hoje, onde o lema é: Você quer, você pode. Sim, o desenvolvimento da civilização impõe restrições à liberdade do indivíduo, que precisa contribuir com o sacrifício de suas pulsões para não ficar à mercê da força bruta. Isso exige um esforço. Podemos dizer também com Lacan que o sujeito do desejo está submetido à castração, que nos impede um gozo absoluto. Esta é a dimensão do impossível.
Em 1974, Lacan apontava o quadro depressivo como falta ética do sujeito, uma “covardia moral”, pois este se recusa a zelar pelo grau de tensão necessária para situar a causa que o determina. Desistindo de bancar o próprio desejo, permanece desorientado, sem vontade, sem ação, paralisado. Em 1958 ele já dizia que a “satisfação da necessidade aparece como o engodo em que a demanda de amor é esmagada, remetendo o sujeito ao sono em que ele frequenta os limbos do ser”.
Seria exagero deduzir que a sociedade pós-moderna alimenta esse limbo, quando tenta suprimir a falta, sufocando o desejo e criando uma série de deprimidos, engasgados com os objetos e exigências de desempenho, tudo querendo e nada desejando? Não seria o hiperativo o protótipo do desempenho, enquanto o depressivo a expressão do isolamento, da deterioração dos laços?
Segundo Han vivemos hoje num mundo muito “pobre de interrupções, pobre de entremeios e tempos intermédios”, isto é, nos falta contemplação, tempo de reflexão, capacidade de admiração. O empuxo à aceleração geral não admitindo folga temporal, encurta o futuro numa atualidade prolongada. Aparentemente tem-se tudo, mas nos falta o essencial, já que a proliferação e a massificação das coisas tenta expulsar o vazio. “O mundo perdeu sua alma e sua fala”. Falta aos sujeitos a “negatividade”, que permitiria olhar para o outro.
Apesar de revelar uma visão um tanto catastrófica da sociedade, termina dizendo que já está na hora de transformarmos “a casa mercantil” novamente numa “casa de festas” onde valha a pena viver. Faz menção aqui à arte originária, que era para Nietzsche arte da festa, obras de arte sendo expostas na “grande rua festiva da humanidade”. A arte como testemunha de momentos supremos de uma cultura, sinais de memória, monumentos do “tempo de celebração”. Não seria à toa, que se tenta calar um povo tirando seu espaço público, seu tempo de contemplação e convivência, destruindo sua arte, sua história, não é mesmo?
O retorno à “casa de festas” não seria uma boa metáfora para nossa aposta na cultura, o investimento na arte e no fortalecimento dos laços?
Em o Mal-estar na civilização, Freud apontou o relacionamento com os outros homens como a causa de maior de sofrimento do homem, devido à nossa tendência agressiva, sendo um obstáculo à civilização. Um pouquinho antes, em Futuro de Uma Ilusão, ele dissera que é justamente por conta dos perigos com que a natureza nos ameaça que nos reunimos e criamos a civilização, a qual se destina a tornar possível nossa vida em sociedade. O elemento da civilização entra em cena como a tentativa de regular a maneira pela qual os relacionamentos mútuos dos homens, seus relacionamentos sociais, “que afetam uma pessoa como próximo, como fonte de auxílio, como objeto sexual de outra pessoa, como membro de uma família e de um estado.” Se não houvesse essa tentativa, os relacionamentos ficariam sujeitos à vontade arbitrária do indivíduo e o homem mais forte decidiria tudo no sentido de seus próprios interesses e pulsões. “A vida humana em comum só se torna possível quando se reúne uma maioria mais forte do que qualquer indivíduo isolado e que permanece unida contra todos os indivíduos isolados. O poder da comunidade é estabelecido assim, como ‘direito’, em oposição ao poder do indivíduo, condenado como ‘força bruta’.” Este foi o passo decisivo, sendo a justiça a primeira exigência da civilização, a garantia de que uma lei, que uma vez criada, não seja violada em favor de um indivíduo sequer.
No entanto, Freud também nos ensina que o efeito humanitário do grupo é sempre parcial, pois há também um efeito segregador com desprezo pelos que não seguem as mesmas normas e padrões, nos afastando daquele que vemos como rival.
O psicanalista acolhe o mal-estar atual decorrente da fragmentação e instabilidade crescente dos laços sociais, que deixa os indivíduos mais expostos à precariedade e à solidão. Ocupando na clínica o lugar de objeto causa de desejo, ele não pode oferecer felicidade, nem mesmo prever que “resto” surgirá após cada sujeito se deparar com seu modo de gozo. No entanto, a ética da psicanálise e o desejo do analista pressupõem abrir um espaço de escuta, um hiato nas significações, onde dizendo o nada, faça surgir o real, o vazio. Não é justamente a tentativa de contornar o vazio, que permite ao sujeito ir em busca de novas modalidades de laços sociais?
NIETZSCHE (1878), em Humano, Demasiado Humano nos diz: “quem adivinha ao menos em parte as consequências e angústias do isolamento, a que toda incondicional diferença do olhar condena de quem dela sofre, compreenderá também que para me recuperar de mim, como para esquecer-me temporariamente, procurei abrigo em algum lugar – em alguma adoração, alguma inimizade, leviandade, cientificidade ou estupidez.” Reforça ainda, que usava o artifício de criar poeticamente o que procurava, mas o que sempre necessitou foi a crença de não ser tão solitário, “uma mágica intuição de semelhança e afinidade de olhar e desejo, um repousar na confiança da amizade, uma cegueira a dois sem interrogação nem suspeita…”
Qualquer semelhança às relações às quais andamos assistindo nas redes sociais, ou grupos que se uniram para apoiar este ou aquele candidato, esta ou aquela ideologia política, não será mera coincidência. Não é difícil encaixar o sentimento de Nietzsche na situação que estamos vivendo hoje e imaginar que os sujeitos desorientados de seu desejo, encontrem abrigo naquilo que parece lhes oferecer um descanso mais imediato para suas dores. Não é à toa, que justamente nesses momentos de fragilidade apareçam os salvadores da pátria tão adorados e que a estupidez possa imperar.
Caberia aqui a questão se o psicanalista deve se posicionar politicamente e se opor à estupidez no social?
Referências Bibliográficas:
– FREUD, S. (1927) O Futuro de uma Ilusão. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XXI. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1974.
– _______. (1930) O Mal-Estar na Civilização. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XXI. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1974.
– HAN, Byung-Chul. (2010) Sociedade do Cansaço. Rio de Janeiro: Vozes, 2017.
– LACAN, J. (1953) Função e Campo da Fala e da Linguagem. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2003.
– _______. (1958) A direção do tratamento e os princípios de seu poder. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2003.
– _______. (1974). Televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993.
– NIETZSCHE, F. (1878) Humano, demasiado humano. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2005.
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Artigo apresentado na Jornada de Psicanálise em Niterói : A Psicanálise na Era dos Laços Precários
Fórum do Campo Lacaniano de Niterói EPFCL- Brasil. Em 08/12/2018
Mariangela Bazbuz
Psicanalista

