A psicologia dos neuróticos

Partindo do princípio que, estudando a vida mental de homens que vivem apartados das sociedades civilizadas poder-se-ia identificar o estádio primitivo do desenvolvimento do homem do seu tempo, Freud em seu livro, Totem e Tabu, abandona a “teoria antropológica da superioridade” do homem civilizado em relação ao primitivo e, aproximando-se da etnologia moderna, traça uma comparação entre a psicologia dos povos primitivos e a psicologia do neurótico. As tribos escolhidas para esse estudo foi a dos aborígenes da Austrália, especificamente as tribos do centro do continente, que, por enfrentarem condições adversas à sobrevivência, eram consideradas pelos antropólogos da época, ainda mais primitivas e pobres do que as da costa.
Esses aborígenes do início do século XX, distinguiam-se dos povos melanésio, polinésio e malaios —seus vizinhos—, pois não se vestiam, não cultuavam deuses, não possuíam reis ou chefes, não construíam casas, não plantavam, nem conheciam a arte da cerâmica, praticavam o canibalismo e sobreviviam da caça e do extrativismo, porém, possuíam um conselho de anciães para decidir sobre os assuntos comuns e erigiam regras, passíveis de severas punições se transgredidas, com o objetivo de evitar o incesto.
Totem, exogamia e sociedade
Essas tribos australianas, eram subdivididas em clãs e denominadas por seu totem: quase sempre um animal ou, raramente, um vegetal ou fenômeno da natureza. O totem era o antepassado e, ao mesmo tempo, o guardião do clã, e, por isso, os seus membros eram impedidos de matá-lo, comê-lo ou tirar algum proveito dele. Quase sempre o totem era transmitido pela linhagem materna, e o laço totêmico, fundamental para a organização das relações sociais, tinha mais força do que o sanguíneo, muitas vezes completamente desprezado.
Os aborígenes de mesmo totem distribuíam-se por diversas localidades, convivendo pacificamente com membros de outros e eram severamente proibidos de manterem relações sexuais e de casarem com os membros do mesmo clã totêmico. O incesto, neste caso determinado pela relação sexual entre pessoas do mesmo totem e, até mesmo, pelo namoro entre irmãos totêmicos, era punido com a morte e com tal rigor e repulsa que a pena era executada por todos os membros do clã.
No sistema totêmico, a proibição para as relações sexuais abrange os mais distantes graus de parentesco e inclui o incesto — tal qual o reconhecemos em nossa cultura — como um caso especial do sistema. Os termos “pai”, “mãe”, “irmão” e “irmã” não são utilizados somente para os parentes consanguíneos; são utilizados também para indicar relacionamentos sociais. Esses aborígenes chamavam de pai a todo homem que poderia ter desposado a mãe e tê-lo gerado; chamavam de mãe a toda mulher que poderia concebê-lo casando-se com o pai; e de irmãos a todos os filhos e filhas das pessoas reconhecidas como pais nesse sistema classificatório.
Além das proibições, surpreendentemente, algumas dessas tribos australianas se estruturavam utilizando divisões para a classificação matrimonial, as “fratrias” e “subfratrias”, que restringiam ainda mais a liberdade matrimonial e sexual, garantindo a exogamia em caso de declínio do totem.
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Para atender as restrições impostas por essa classificação, um homem do totem β só poderia casar-se com mulheres dos totens 4, 5 e 6, pois as demais estariam impedidas por pertencerem às subfratrias relacionadas (c) e (e) ou ainda à fratria (a).
Nesse estádio da organização das classes matrimoniais, podemos observar que as restrições da liberdade sexual não afetavam as relações entre pais e filhas, mas as relações entre irmãos e entre filho e mãe. O impedimento para a relação entre pais e filhas surgiu posteriormente com a expansão do regulamento.
Além das proibições descritas, esses povos ainda se submetiam a uma série de normas regulatórias da atividade social entre parentes: as “evitações”. Seguem algumas praticadas por povos australianos de diferentes regiões:
- o menino, ao chegar à maturidade sexual, deixa a casa paterna e muda-se para uma casa comum, só obtendo permissão para visitar a casa paterna na ausência de suas irmãs — Ilha dos Leprosos, Novas Hebridas;
- a irmã, ao encontrar o irmão, foge para o mato e evita o contato — Nova Caledônia;
- a mulher, após o casamento, não fala mais com o irmão, nem pronuncia o nome dele — Peninsula Gazelle, Nova Bretanha;
- a mãe alimenta o filho púbere indiretamente, deixando a comida no chão para que ele se sirva — Ilha dos Leprosos, Novas Hebridas;;
- o pai nunca fica sozinho com a filha —Povos batas, Sumatra.
Outras ainda incluem restrições ao contato entre primos e primas, sogras e genros, cunhados e até mesmo entre animais domésticos de mesma linhagem.
Nessas tribos, tamanho era o horror ao incesto que as medidas tomadas para evitá-lo sustentam a própria estrutura social. Podemos inferir que tal horror e medidas preventivas só se justificam por uma enorme tentação em cometê-lo:
Não é fácil perceber porque qualquer instinto humano profundo deva necessitar ser reforçado pela lei. Não há lei que ordene aos homens comer e beber ou os proíba de colocar as mãos no fogo. (…) A lei apenas proíbe os homens de fazer aquilo a que seus instintos os inclinam; o que a própria natureza proíbe e pune, seria supérfluo para a lei proibir e punir. Por conseguinte, podemos sempre com segurança pressupor que os crimes proibidos pela lei são crimes que muitos homens têm uma propensão natural a cometer. (Frazer, 1910,4,97 e seg – citado por Freud, 1913, p.129)
É relevante acrescentar que, curiosamente, apesar de tantas restrições, em algumas tribos —a exemplo de Fiji—, são realizadas “orgias sagradas” nas quais as proibições cedem lugar ao desejo. Tal atitude nos possibilita formular que o horror ao incesto deriva do desejo por cometê-lo associado à necessidade de contê-lo, por entender que a sua prática não favorece as relações sociais.
Há indícios de que o totemismo esteve presente entre os aborígenes arianos e semitas da Europa e da Ásia. No início do século XX, ainda era possível se observar sociedades vivendo sob o regime totêmico nas Índias Orientais da Oceania, na África e na América do Norte —de onde se origina o termo—.
Para Freud (1913), o totemismo é “(…) uma fase necessária do desenvolvimento humano que tem sido universalmente atravessada”( p.23).
A rivalidade na horda darwiniana
Diante das incertezas em que mergulhamos ao investigar o totemismo, cabe ainda avaliar o ponto de vista elaborado por Charles Darwin sobre o estado social dos homens primitivos, a partir da observação dos símios superiores. Para Darwin, o homem primevo vivia em pequenas hordas e o ciúme do macho, líder e mais forte, garantia a exogamia:
(…) o homem primevo vivia originalmente em pequenas comunidades, cada um com tantas esposas quantas podia sustentar e obter, as quais zelosamente guardava contra todos os outros homens. (…) Os machos mais novos, sendo assim expulsos e forçados a vaguear por outros lugares, quando por fim conseguiam encontrar uma companheira, preveniram também uma endogamia muito estrita dentro dos limites da mesma família. (Darwin, 1871,2,362 e seg. – citado por Freud, 1913, p. 131)
O que se vê na horda sugerida por Darwin é um pai terrível e violento, detentor de todas as mulheres, que expulsa seus filhos para não correr o risco de compartilhá-las. Ocupava o lugar de ideal do grupo e dirigia o eu dos integrantes da horda no lugar do supereu. A consequência desse tipo de estrutura é a exogamia para os filhos do líder, que formariam novas hordas com a mesma proibição. Assim, não havia relação sexual entre indivíduos da mesma horda, exceto entre o líder e suas esposas, e esse líder só cedia o seu lugar quando morria.
Provavelmente, os filhos expulsos, separados do pai e vivendo exilados, “passaram da identificação uns com os outros para o amor homossexual de objeto e, dessa forma, conseguiram liberdade para matar o pai” (Freud, 1921, p. 134). Retornaram à horda paterna e juntos devoraram o tirânico e invejado pai; ao devorá-lo, identificaram-se com ele e adquiriram parte de sua força. Deu-se origem, então, às hordas fraternas, plenas de sentimentos contraditórios e ambivalentes por terem sido constituídas a partir da morte do pai, que, ao mesmo tempo, era odiado e amado. Após satisfeito o ódio, o amor recalcado apresenta-se na forma de culpa e remorso e, assim, “o pai morto tornou-se mais forte do que o fora vivo.”(Freud, 1913, p.146)
O que até então era proibido pelo pai real manteve seu caráter proibitivo na forma dos dois principais tabus do totemismo: não matar o animal totêmico, representante do pai primevo, e não se relacionar sexualmente com pessoas do mesmo totem. Tal interdito foi o ponto decisivo para a possibilidade de uma nova organização social, pois, sem ele, os irmãos, livres do pai, digladiar-se-iam pelo domínio das mulheres e do poder numa luta sem fim pelo lugar inalcançável do pai.
Nunca foi possível realizar uma observação direta da horda de Darwin. O mais antigo sistema social já examinado é constituído de machos com direitos iguais, vivendo sob o regime das leis totêmicas. A hipótese darwiniana, diferentemente do que foi exposto, apresenta-nos o totemismo como derivado da horda primeva e não, anterior a ela. Partindo dessa hipótese, infere-se que, com o passar do tempo, as hordas, formadas pelos filhos ao longo das gerações subsequentes foram recebendo nomes de animais, vegetais etc., dando origem ao totemismo, e a lei delas toma outra forma, proibindo a relação sexual entre indivíduos do mesmo totem.
Graças ao totemismo, a culpa pelo parricídio foi amenizada e justificada. Era factível aludir que, se os filhos tivessem recebido o tratamento paterno nos moldes do que o totem lhes assegura, não havia motivo para matá-lo. Nas palavras de Freud (1913):
O sistema totêmico foi, por assim dizer, um pacto com o pai, no qual este prometia-lhes tudo o que uma imaginação infantil pode esperar de um pai –proteção, cuidado e indulgência– enquanto que, por seu lado, comprometiam-se a respeitar-lhe a vida, isto é, não repetir o ato que causara a destruição do pai real. (p.148)
A religião totêmica ameniza o sentimento de culpa dos membros do clã e pacifica o pai por meio da obediência adiada. Isso possibilita esquecer a própria origem: parricídio e incesto.
O complexo nuclear das neuroses: Incesto e Parricídio
À luz da Psicanálise, sabe-se que o incesto é uma característica infantil, pois a mãe é o primeiro objeto de amor de uma criança; porém, à medida que amadurece, ela liberta-se da tentação incestuosa e dirige seu interesse sexual para outros objetos. Com o neurótico, as coisas não se dão dessa forma: o neurótico é aquele que, seja por regressão, seja por inibição, mantém características psicossexuais infantis, tornando a fixação libidinal incestuosa o centro de sua vida mental inconsciente. Dessa forma, continuando a analogia entre os impulsos inconscientes do neurótico e a psicologia dos povos selvagens, podemos inferir que os desejos incestuosos inconscientes e reprimidos do neurótico fossem ainda encarados pelos povos selvagens como perigos iminentes; contra eles, portanto, precisavam severamente se defender.
Não matar o animal totêmico, representante do pai primevo e não se relacionar sexualmente com pessoas do mesmo totem foram os tabus violados por Édipo, que matou o pai e tomou o seu lugar junto à mãe. Esse desejo parricida e incestuoso, universal e inconsciente, é o que Freud chama de complexo nuclear das neuroses.
Os totens de Árpád e Hans
A desinibição diante das necessidades fisiológicas, o desconhecimento de sua própria natureza, a falta de escrúpulos e a despretensão social fazem com que as crianças se percebam mais semelhantes ao animal do que ao homem adulto civilizado, porém, muito frequentemente, temos notícia de crianças com medo de uma espécie animal que, até então, as encantava como se vê história do Pequeno Hans (Freud,1909). Outra, a história do Pequeno Árpád, classificada por Freud (1913) como “um exemplo de totemismo positivo”, devemos seu relato a Ferenczi.
A fobia do Árpád tem sua origem nas férias de verão, quando ele, aos dois anos e meio, aventurando-se a urinar em um galinheiro, foi atacado por uma galinha, que tentou bicar (ou bicou) o seu pênis. Um ano depois do incidente, ao visitar o mesmo lugar, o menino dirigiu todo seu interesse para o galinheiro, inclusive trocando o falar pelo cocoricar. Aos cinco anos, já retomada a fala, seu interesse, seus assuntos, suas canções e seus brinquedos ainda eram todos relacionados às aves domésticas, incluindo um estranho jogo no qual matava as galinhas, dançava por horas ao redor dos corpos e, depois, acariciava, beijava e limpava as aves de brinquedo que havia maltratado.
Pode-se constatar no caso do Árpád, o menino Galo, uma estrutura semelhante à observada no totemismo australiano: uma identificação do homem com seu totem ao mesmo tempo em que desenvolve uma relação emocional ambivalente para com ele. O estranho comportamento foi traduzido da linguagem totêmica para a linguagem usual pelo próprio menino ao expressar que seu pai era um galo e que ele era um frango que se transformaria em uma galinha para depois vir a ser um galo.
A intensa atividade sexual entre galos e galinhas, a postura de ovos e o nascimento dos filhotes aguçavam e satisfaziam a curiosidade do menino, como também desviavam a atenção do real objeto, que era a própria família.
Tanto no caso do pequeno Hans quanto no caso do pequeno Árpád, o que está em jogo é uma relação de amor e ódio, que culmina com a substituição do pai pelo animal totêmico, cavalo e galo, respectivamente, tal como ocorre no totemismo, no qual o totem é um “ancestral comum e pai primevo”.(Freud, 1913, p.136)
Uma ambivalência chamada Tabu
Tabu é um termo que traz em si uma antítese: ao mesmo tempo que significa sagrado, significa também impuro. Carrega a marca do inabordável, do intangível e é expresso, principalmente, por restrições e proibições. Freud (1913) supõe-se que os tabus sejam o código de lei mais antigo da humanidade, precedendo aos deuses e às religiões, e, apesar de poder coincidir com a noção de “temor sagrado” (p.37), as interdições impostas pelos tabus não atendem nem as ordens divinas, nem as regras morais de um grupo social: “as proibições dos tabus não têm fundamento e são de origem desconhecida” (p.37).
Originalmente, a violação de um tabu era por ele mesmo vingada. Após o surgimento da ideia de deuses e espíritos, passou-se a esperar que o poder divino punisse o infrator, e, subsequentemente, os grupos sociais ameaçados pela transgressão criaram os primeiros sistemas penais para punir os transgressores.
O tempo de duração dos tabus varia conforme suas características. Podem ser permanentes — aqueles ligados a sacerdotes, morte, objetos de pessoas mortas etc — ou temporários — os associados a estados transitórios como a menstruação, parto, retorno do pós-guerra, entre outros.
Uma das características do tabu é a transmissibilidade, pois, como uma infecção, é transmitido àqueles que o violam, o tocam ou se aproximam de pessoas ou coisas assim consideradas. Para evitar alguns desses perigos, são realizados “atos de expiação e purificação” (Freud, 1913, p.39), visando expulsar o tabu daqueles que se submeteram à transmissão.
Entre os povos primitivos, um tabu é cegamente respeitado. Suas proibições — associadas quase sempre à limitação do prazer, da liberdade, do movimento e da comunicação —, assim como as severas penas aplicadas aos transgressores, são aceitas como naturais e desejadas pelo grupo.
Freud (1913) justifica seu interesse pelo tabu por reconhecê-lo na origem das convenções e das proibições de sua época e, principalmente, por “lançar luz sobre a origem obscura do nosso próprio ‘imperativo categórico’” (p.41), o supereu, que, tão ambivalente quanto um tabu, expressa a lei moral e também a ordem de gozo cego e destrutivo.
Proibições e restrições desprovidas de sentido, sem origem identificável, surgidas em momentos não específicos e mantidas por uma certeza inabalável de punição sem a necessidade de nenhum agente externo para executá-la, assim como rituais expiatórios e defensivos para evitar que o mal se instale, são, como já elucidaram os estudos psicanalíticos, características não só do tabu, mas também da neurose obsessiva. Outro ponto coincidente entre tabu e neurose obsessiva é o fato de que suas proibições são facilmente deslocáveis, transmissíveis: estendem-se de um objeto a outro e desse a outros, sem nenhuma conexão lógica aparente, criando um mundo de impossibilidades para quem se submete a elas.
Uma situação ambivalente é gerada por essas proibições conscientes ao reprimir um desejo inconsciente: o desejo reprimido, para fugir do impasse, retorna do inconsciente ligado a objetos substitutos. A consequência ulterior do deslocamento do desejo é o também deslocamento da proibição, que se estenderá a todos os novos objetos desejados, gerando, com essa inibição mútua, uma forte tensão libidinal e, consequentemente, uma descarga através dos atos obsessivos.
Se tomarmos para analisar as proibições obsessivas e os tabus mais fundamentais, salvaguardando as diferenças entre um selvagem e um neurótico, poderemos encontrar muitos pontos coincidentes:
as origens remotas, incertas e inconscientes;
o intenso desejo de praticar as ações que foram proibidas por autoridade parental ou social de uma geração anterior;
o medo maior do que o desejo de realizar a atividade proibida;
o deslocamento – transmissão – do objeto proibido;
os atos de expiação e reparação.
A comparação estabelecida por Freud entre o homem primitivo e o neurótico, mais precisamente o neurótico obsessivo, fica bem delineada por dois pontos centrais:
ambos foram perpassados pelo desejo de matar o pai e tomar o seu lugar;
o desejo parricida foi sucedido por um período de moralidade exacerbada.
Como pontos distintivos, tem-se que os homens primitivos, desinibidos, experimentaram de forma concreta o que havia em sua realidade psíquica, enquanto os neuróticos, inibidos em sua ação, fazem do pensamento o substituto dos seus atos.
Divindade, sacrifícios e religião totêmica
Em seu estudo, Freud revê o trabalho de William Robertson Smith (1889) —físico, filólogo, crítico da Bíblia e arqueólogo— que em seu livro Religion of Semites, tendo como referência os antigos semitas, apresenta a refeição totêmica na base do totemismo, assim como o sacrifício de animais como uma característica geral, essencial e mais antiga das religiões desses povos. Apesar da matança do primitivo animal totêmico ser proibida como a de qualquer membro do totem, nessas ocasiões era justificada por ser praticada por todo o clã. Após a matança, os membros da comunidade compartilhavam com o seu deus a carne e o sangue do animal sacrificado. Assim, enquanto o alimento ingerido continuasse em seus corpos, não precisavam mais temê-lo e podiam contar com a sua proteção. Essa refeição sacrificatória, por promover uma proteção temporária, precisava ser repetida e, ao repeti-la, todos os membros do clã fortaleciam o parentesco por meio da crença de que eles e o seu deus eram feitos de uma só substância.
Apenas os pais não participavam dessa refeição, uma vez que o totem era transmitido pela via materna e, por isso, necessariamente, diferente do totem paterno. Nas sociedades totêmicas, estudadas por Smith, caracterizadas pelo matriarcado e pelo sacrifício de animais, surge, surpreendentemente, o conceito de um deus masculino sob a forma de pai glorificado. Uma transformação, impulsionada pela saudade do pai primevo da Horda Darwiniana e pelo sentimento de culpa oriundos do assassinato dele, faz com que o totem, primeiro representante do pai, passe a compartilhar a cena religiosa com um deus de forma humana e com o animal a ele consagrado: “A elevação do pai que fora outrora assassinado à condição de um deus de quem o clã alegava descender constituía uma tentativa de expiação muito mais séria do que fora o antigo pacto com o totem.” (Freud, 1913, p.151)
Apesar da elevação do pai à condição de deus, uma atitude de ambivalência com ele pode ser notada no sacrifício do animal perante o deus do clã, pois tanto o animal sacrificado quanto o deus homenageado são, cronologicamente, representações do mesmo pai, para o qual os desejos hostis e amorosos dos filhos convergem. No sacrifício, em um mesmo ato, ultrajam e reverenciam o mesmo pai. Diz Freud (1913): “A atitude ambivalente para com o pai encontrou nela [na dupla presença do pai] uma expressão plástica e assim também uma vitória das emoções afetuosas do filho sobre as hostis.” (p.152)
Com o retorno do pai ao centro da cena social, o matriarcado totêmico dá lugar a uma sociedade de base patriarcal, devolvendo alguns direitos do pai primevo ao pai atual, mas garantido as conquistas do clã fraterno. Essa nova estrutura conta com pais cuja função garante a ordem social e a religião. E, ao garantir a religião, garante também uma forma de ligação do clã totêmico com o pai.
O pecado original
O pecado original, tal como apresentado pela doutrina cristã, é o resultado direto do pecado cometido por nossos primeiros ancestrais: Adão e Eva. Ele pretende explicar a origem da imperfeição do homem, do seu sofrimento e do advento do mal através da “queda do homem”.(Bíblia, 2005)
Segundo a Bíblia Sagrada, a culpa por terem cedido à tentação da sedutora serpente ao comerem do fruto proibido da árvore do conhecimento, desobedecendo às ordens de Deus, fora transmitida de forma hereditária para toda humanidade. A doutrina cristã afirma que, para redimir os homens desse pecado hereditário, Cristo, filho de Deus, deu-se em sacrifício e morreu na cruz, em “uma expiação para com o Deus-pai” (Freud, 1913, p.156).
Pela simbologia contida nesse mito, que envolve a serpente e a transmissão congênita, levanta-se a hipótese de que o pecado original apresenta um caráter de desobediência sexual.
Outro ponto de vista pode ser aventado, atribuindo-se maior relevância ao fato de o fruto proibido ser um fruto da árvore do conhecimento. Tomando-se essa via de pensamento, pode-se estar diante do processo de hominização, diante do homem ultrapassando a horda de Darwin e deixando a natureza em direção à cultura: sabe-se que o custo desse processo foi o assassinado do pai da horda.
Uma das mais antigas leis da humanidade consiste em uma rigorosa reciprocidade entre crime e pena, a lei de talião. Por essa lei, se um olho for de alguém arrancado, o agressor terá também o olho retirado; logo, somente um assassinato poderia ser expiado por outro.
Partindo-se dos ensinamentos cristãos, tem-se que, para salvar os homens, Cristo se permitiu ser morto, como um animal sacrificatório, e foi oferecido a Deus como forma de expiação do pecado original. Considerando-se a antiga lei, somente a morte de um pai poderia justificar a morte de um filho como expiação.
Aos olhos de Freud (1913), Cristo, filho de Deus, representando todos os demais filhos, permite-se ser sacrificado para livrar a humanidade do pecado original: o parricídio. Com este sacrifício, além de os homens expiarem o pecado, ocorre outro fenômeno não menos importante: o próprio Cristo, em atitude ambivalente, tal como em uma neurose obsessiva, demonstra sua veneração pelo pai, mas também realiza seu desejo contra ele: torna-se deus, ocupa o lugar do pai e dá origem a uma religião filial — o cristianismo —, no lugar da religião paterna.
Essa sucessão fica evidente na atualização da refeição totêmica, que, no cristianismo, se apresenta sob a forma da eucaristia. Nela, todos os irmãos consomem o corpo e o sangue do filho e não do pai, e aqueles que comungam regularmente o fazem para se santificar e se identificar com o seu Deus, o Cristo, o filho de Deus pai. Reafirmam com a eucaristia, a cada vez que se repete, além dos laços com o filho, a eliminação do pai.
Diante do exposto, pode-se inferir que, até na base da religião cristã, encontra-se o que Freud denominou como o núcleo de todas as neuroses, o Complexo de Édipo, mais especificamente, a rivalidade entre pai e filho.
Antonio C. B. Campos
Professor e Psicanalista
Referências
Bíblia Sagrada, Tradução: Frei José Pedreira de Castro, Genesis, Capítulo 3:1 – A tentação de Eva e a queda do homem, Editora Ave Maria, 55ª Edição Claretiana, 2005.
Freud, Sigmund. Análise de uma fobia em um menino de cinco anos, 1909. In: ______. Duas histórias clínicas (o “Pequeno Hans” e o “Homem dos Ratos”. Rio de Janeiro: Imago, 2006. p. 11-133. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud).
Freud, S. Totem e Tabu, 1913 [1912-13]. In: ______. Totem e Tabu e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 2006. p.11-163. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud).
Freud, S. Psicologia de grupo e a análise do ego, 1921. In: ______. Além do princípio de prazer. Rio de Janeiro: Imago, 2006. p. 77-154. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud).
O presente artigo trata-se de uma adaptação do texto publicado no livro: “Pai e Filho: uma relação ambígua”, baseado em minha dissertação de Mestrado em Psicanálise defendida em julho de 2016 na Universidad Argentinha John F. Kennedy — CABA, sob a orientação da Dra. Maria Ester Jozami.
