Nadiá Paulo Ferreira – Viver na glória imaginária ou Morrer no anonimato simbólico: eis a questão!

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O título desse prefácio foi inspirado no texto “Estudos mostram lado nefasto do produtivismo acadêmico”, do jornalista Evanildo da Silveira, publicado em 28 de fevereiro de 2022, na revista digital, Questão de ciência, que é uma publicação que tem o mesmo nome da revista (IQC).

Sem dúvida, foi uma agradável surpresa encontrar este artigo: Meus Deus! não estou sozinha. Um jornalista escreveu o que eu gostaria de ter escrito há muito e muito tempo… Diz o autor:

Ninguém do mundo acadêmico desconhece a expressão – ou princípio, ou mandamento – “publish or perish”, em português “publique ou pereça”. Significa que um cientista que não publica artigos em periódicos especializados, relatando suas descobertas, não é produtivo, é irrelevante ou, no limite, não existe para a comunidade acadêmica. Ele terá dificuldades para progredir na carreira, conseguir financiamento para suas pesquisas e formar novos pesquisadores, pois não terá bolsas de mestrado ou doutorado a oferecer.

Imediatamente associei este texto à reunião, que fui ao Colegiado da minha universidade, em que um professor muito antigo, já com tempo para se aposentar, fez o pedido de se inscrever para a candidatura de Professor-Titular. Em uma reunião do Colegiado da Pós-Graduação, a Chefe do Departamento informou que conversou com o professor, dizendo-lhe o seguinte: — Você já publicou muitos livros. Porém há três anos você não publica nada. Agora é preciso que você publique artigos em revistas muito bem classificadas pela CAPES. Fazendo isto, você está apto para fazer o concurso. Aliás o que se espera de cada professor é a publicação de três artigos por ano, em revistas bem classificadas pela CAPES para melhorar a nota do Programa de Pós-Graduação. O professor se aposentou…

Seria cômico se não fosse verdade… 

Em Outro Tempo… ,  Em 16 de março de 1968, Jacques Lacan cria a revista Scilicet.

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tu peux savoir

ce qu’en pense l’ École freudienne de Paris

Lacan apresenta o caráter inovador da revista, em relação aos panoramas editoriais e universitários da França: “Esta revista é um dos meios pelos quais espero superar não a Escola, tão distinta em princípio das ditas Sociedades, mas o obstáculo que me levou a resistir em outros lugares.

Mas Lacan não pára! Um passo a mais que a todos surpreende.

Esta revista se baseia no princípio do texto não-assinado, pelo menos para quem lhe traz um artigo como psicanalista.

E acrescenta: 

Dito isto, é importante distinguir o não-assinado do anonimato. (…) os nomes aparecem  em uma lista (…) que assume a totalidade da publicação.

Sem dúvida, Lacan se lança à aventura de editar uma revista que seja, antes de tudo e mais nada, efeito discursivo do seu ensino, que visa a re-leitura da obra freudiana. Mas… para nossa CAPES, um artigo para ser aprovado precisa de “um bom nível científico”, “ser bem escrito”, ter “relevância para a sociedade” e “originalidade”.

Vamos pensar! O que é ter relevância para a sociedade? É simplesmente pensar como Jeremy Bentham (1748-1832), que inaugurou o utilitarismo: “o máximo de utilidade para a maioria, tal é a lei, segundo a qual, nesse nível, o problema da função dos bens  se organiza.” Para isto é preciso avaliadores que se escondem no anonimato, através de um esquema panóptico,  que permite o  aperfeiçoamento do exercício do poder da CAPES. 

Agora chegamos a um dos quesitos mais bizarros: a originalidade. Em primeiro lugar essa exigência não deixa de ser engraçada. É para rir ou chorar? Mas, mesmo assim, navegar é preciso… descobrir não é  preciso…

Sem dúvida, Freud descobriu um lugar chamado inconsciente e Lacan descobriu um objeto que ele nomeou de objeto a. A partir daí quantos discípulos fiéis passaram a escrever sobre essas descobertas, levantando questões muito pertinentes, mas não criadoras. E quantos discordaram do mestre, levantando outras questões. Assim caminham as descobertas… Assim caminham os discípulos… 

Nesse contexto, nasce a Re-vista de Humanidades:

Uma revista livre, porque não vai pedir para ser avaliada pela CAPES. Todos aqueles que mandam seus artigos para serem publicados devem saber que esses artigos não têm valor na Universidade e portanto não lhe darão pontos em seu currículo.

Nadiá Paulo Ferrerira

Psicanalista

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Pretópolis: Vozes, 1987.

LACAN, Jacques.  Semináro, livro 7: a ética da psicanálise. 1959-1960. Rio de Janeiro, Zahar, 2008

 

2 comentários Adicione o seu

  1. Avatar de Roberto Pinto Roberto Pinto disse:

    Que interessante. Escrever deveria ser um ato de inspiração e não uma obrigação. Envolve a alma é essa inspiração é fundamental para se produzir conteúdos de qualidade. Muito bom. Parabéns!

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    1. Estamos de acordo, Roberto. Publique conosco.

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